Em 2014, quando eu ainda era feminista, eu vivenciei algumas ações e atitudes contraditórias dentro do feminismo radical. Preciso ser breve e objetiva (por falta de tempo), então não me cobre minúcias. Era algo que ninguém discutia ou reclamava, claro, mas era como pertencer a uma igreja que prega uma coisa, com muita ênfase, e faz totalmente outra.

O feminismo radical é um feminismo materialista e bem diferente do marxismo por ser crítico dele, da experiência das mulheres no regime soviético, em espaços de militância com homens de esquerda, e do apagamento do caráter misógino do patriarcado pela substituição, ou sinonimação do termo, pelo termo capitalismo.

Para o feminismo radical, o patriarcado é o sistema que origina todas as opressões, então, a raiz (radical vem de raiz) de todas as opressões e problemas sociais é a dominação masculina. Para o marxismo é meramente o capital. O capitalismo. Daí eles repetem jargões como Patriarcado = Capitalismo. Já viu esse bordão por aí? Deveria se atentar a ele…

Uma análise sobre feminismo radical (que utiliza o MÉTODO materialista) e marxismo, o diferenciando do feminismo marxista, e criticando os teóricos “marxistas”, que eu li, sendo a única nesses 2 anos, foi a aparentemente muito lúcida, apesar de branca, da Christine Delph, socióloga feminista materialista da França:

“Os conceitos usados pela análise marxista da exploração capitalista (ou Capital, para simplificar) não podem na realidade explicar a exploração das mulheres, pela mesma razão que não podem explicar a exploração de servos, escravos, ou servos contratados, ou prisioneiros em campos de trabalho, ou arrendatários africanos. Pela simples razão de que os conceitos usados para explicar a exploração por salários – e é isso que é o assunto do Capital – não podem explicar a exploração dos não remunerados. Mas os conceitos usados na análise do capitalismo não são o todo do pensamento marxista. Ao contrário, eles são em si mesmos derivados de conceitos mais gerais. Como, de outro modo, teria Marx sido capaz de analisar modos de produção e exploração não-capitalista, tais como a escravidão e o feudalismo? Os conceitos de classe e exploração não vem do estudo do capitalismo; ao contrário, eles pré-existem a ele, autorizam ele, e são a origem da noção do capitalismo em seu sentido marxista, ou seja, como um particular sistema de exploração. Esses conceitos mais gerais – classe e exploração – não somente de nenhum modo requerem que as divisões sexuais sejam ignoradas mas, ao contrário, são eminentemente úteis em explicá-las. E aqui eu quero dizer “explicar” no sentido forte: não somente em descrevê-las, não em descrever somente o que ocorre depois que a divisão existe, mas em explicar sua gênese.”

A análise dela é tão objetiva e contundente, que recomendo mesmo a leitura.

O feminismo radical é uma teoria, e ela acaba englobando vários conceitos e análises que acabam formando um padrão daquilo que pode dizer de “pensamento feminista radical”. Então, não é qualquer coisa que se autoproclama “terf” que é feminista radical. E a base do feminismo radical é de uma literatura feminina branca. Ou seja, mulheres escrevendo sobre aquilo que chamam de “a opressão das mulheres pelos homens”. Divergências e caminhos aléns tem? Principalmente quando se adentra nas experiências lésbicas. Mas um padrão de características do que é feminismo radical existe. E teóricas contemporâneas brancas radicais também existem.

Daí, em 2014, eu percebi uma contradição revoltante. O feminismo radical é separatista e prega que mulheres devem ler mulheres, e que mulheres que devem escrever sobre mulheres. Há todo um compêndio polarizado em criticar homens. Mas aqui no Brasil, algumas mulheres e coletivos que se diziam feministas radicais (além de expulsar mulheres negras de seus grupos), estavam trazendo um discurso que favorecia homens, não-negros. E apoiando escritos de homens brancos sobre o feminismo radical.

E coisas como “parem a misandria”, “só existe um feminismo, não precisa do nome radical”, “patriarcado não é a origem de todas as opressões”, e etc, era pregado em tom de crítica e decepção, como se o feminismo radical precisasse ser corrigido por isso.

Bem, paralelamente, o feminismo marxista, ou classistas, quando eu ia pesquisar sobre, estava aparelhado pela teoria queer, que é uma teoria pós-moderna, fruto de um desdobramento de filosofias e correntes liberais. Um tanto, para não dizer bastante, incompatível com o método materialista, o mesmo utilizado e defendido por Marx e Engels.

Isso quer dizer que quem antes se identificava com o feminismo marxista ortodoxo, não via mais espaço nos coletivos de feminismo marxista, pois não aceitar a leitura de gênero queer é ser terf (sic). Então, “já que você é terf, você é radical”…

E os únicos locais aparentemente livres da infiltração da ideologia queer era o feminismo radical. E o feminismo radical ficou resumido a isso, não trabalhar com políticas identitárias de gênero, não trabalhar com conceitos como privilégios cis, e ainda ser crítico da misoginia de gays, travestis e transsexuais do sexo masculino, pois a socialização muito importa para este feminismo.

Então, para mim, muito particularmente, estava claro que alguma coisa estava muito errada. Contraditória. Veja bem… Eu, negra, poderia muito bem ser vigiada e criticada por estar mantendo homens negros em meu face, e os mesmos falando de feminismo… Mas elas podiam ter seus homens brancos marxistas falando de feminismo. E se diziam radicais. Isso deu treta, obviamente.

Daí, eu, muito particularmente, tive uma coceira da mente, me questionando sobre aquilo tudo, tal como fiz aos 9 anos quando eu era cristã… Já que eu li a bíblia na íntegra, quase duas vezes…

E reparei o tipo de discurso:

– Anti-misandria ou crítico da misandria.

– Escassa ou nenhuma citação de autoras feministas radicais, mas citações de autores homens, marxistas ou de esquerda.

– Um ranço de teorias anarquistas.

– Anti-PT (importante citar esse padrão).

– Ataque às negras e sua reinvindicação de lugar de fala.

– Ataque à teoria do local de fala como liberal e falsa simetria com a prostituição. “Porque se o feminismo radical aceitar lugar de fala, radfems, radfems não, odeio americanização, feministas, pois só existe UM feminismo, não vão poder falar de prostituição”.

– Posterior expulsão de negras que apontavam a falsa simetria.

– Criação de grupos de letramento racial só para brancas discutir racismo em paz.

– Crítica ao lesbofeminismo (não que fossem as únicas, mas era uma característica) e hostilidade às lésbicas.

– Crítica às defesas de feministas radicais (algumas) às mulheres burguesas.

– Linguajar obscurantista com jargões pedantes e excesso de circunlóquios (que eu lia, e relia, e percebia que nada tinha sido dito – elas escreviam mal).

– Homens podem sim falar sobre feminismo.

Uau…

Na mesma época eu criei o Á Margem. Por também isso. E a perseguição contra mim foi endossada cada vez mais. Depende do texto que eu lançava nos grupos deste mesmo blog. Eu me tornei uma ameaça às feministas.

Ok… Grandes merdas elas.

Bem, uma radical na época, lésbica, e que vivia dividindo textos de leituras (quem sabe inglês se beneficia mais nessas horas) interessantes de autoras radicais, me chamou pra discussão já que ela viu que eu estava, ao meu modo, apontando contradições, e falou em “aparelhamento ideológico”. Eu sou das exatas, nunca ouvi esse termo. Perguntei o que era e ela me explicou. Semanas depois eu a excluí do face porque ela tinha empregada doméstica negra (risos hoje, não por achar menos grave, mas eu tava boladona na época*).

*eu vim da favela, já fui empregada doméstica e babá aos 13 anos, então, 
eu sinto revolta com isso, enquanto muitas feministas negras não. 
Por isso os risos... porque o mundo é mais podre do que parece.

Ok…

Bem, eu sou negralista, para quem não sabe. E a idealizadora do negralismo. E, como tal, enquanto eu me mantiver neste movimento (minha saída é hiper-possível), eu vou lutar contra a desonestidade intelectual de classificar negralismo como feminismo negro, e dizer que tudo é a mesma coisa e tanto faz, chega mais. Pois isso dilui e ofusca, até as diferenças deixarem de existir.

Mas estamos falando de política… Essa coisa podre.

No negralismo eu digo que estamos em guerra. E me preocupa que as negras não entendam isso, por falta de visão panorâmicas sobre as dinâmicas de explorações e parasitismo humano.

Se negralismo não é feminismo, ele não deve ser englobado dentro do feminismo, mas ficar destacado, justamente para que a mescla não ofusque os conceitos mais diferenciadores do feminismo. E não vou falar sobre isso de novo aqui.

Aqui é para falar do aparelhamento do feminismo radical pelo Marxismo, pelas leituras  marxistas não-queer (pleonasmo), e pela ofuscação do mesmo devido à hegemonia masculina e intelectual dos marxistas, que, são academicistas, no sentido verdadeiro e original da palavra.

Sobre meu problema com marxistas (não com isonomia de direitos, oportunidades e sequer remuneração), me sinto em casa nesse trecho da Delphy:

“A atitude religiosa constrói Marx como um objeto de estudo em si mesmo. “Marxologistas”, como seu nome indica, estão interessados em Marx enquanto Marx. Eles perdem de vista do porquê Marx é importante; ou melhor, eles invertem a ordem de prioridades. Eles julgam Marx não em termos de políticas, mas julgam políticas em termos de Marx. Esta atitude talmúdica pode, à primeira vista, parecer contraditória às interpretações muito variadas a ser encontradas entre os diferentes setores marxistas (algo não ruim em si mesmo) e o fato de que suas análises, todas supostamente “marxistas”, divergem radicalmente entre eles mesmos. Mas, na realidade, a reverência pela missiva de Marx, a constituição disso na referência última, semi-divina, o dogma da infalibilidade, serve para construir a autoridade com a qual os “marxistas” posteriores, quem quer que eles sejam, adornam a si mesmos. O recurso do argumento da autoridade – eu estou certo porque eu sou um Marxista – não é de jeito nenhum particular de marxistas, mas isso não faz disso mais perdoável.
O marxismo é erigido como o valor dos valores e é visto não somente acima das lutas, mas fora delas. A última perversão, e aquela que é além disso muito difundida, é aquela de que as pessoas então vem julgar a real opressão, e mesmo a própria existência da opressão, de acordo se ou não corresponde ao “marxismo”, e não o marxismo de acordo com se ou não é pertinente ou não à real opressão. Essa perversão não é, claro, um simples desvio do intelecto, desprovido de significado político. Para enfatizar uma revolta, como uma revolução de mulheres, somente aquilo que é consistente com suas interpretações do marxismo permite as pessoas eventualmente a decidir que uma revolta é inválida ou sem importância (“o que importa é ser um marxista, não fazer uma revolução”).” – leia a íntegra AQUI.

Para um marxista (esses “da internet”, esses performáticos), eu sou uma inculta por SER NEGRA, e por não palavrear e reproduzir “Marx” e ovacionar Lênin e o regime soviético.

Para quem é minha leitora, está muito claro como eu sou multi e transdisciplinar, primeiramente pela minha formação, em Física, não humanas ou sociais. E estou citando isso para aconselhar a não-polarização de ideias, pois isto é típico de religiões, sendo na verdade uma ferramenta muito eficaz de estagnação de ideias. Enquanto a engrenagem chamada de capitalista cresce em poder, principalmente via a ferramenta Tecnologia. Fora diversas outras demandas…

O objetivo do Negralismo é bem claro para os menos afromisóginos, chamada de responsabilidade de caráter urgencial. E isso porque o local de fala desta que vos fala é de no mínimo de tangência com as demandas mais urgentes de camadas (negadas por marxistas como mais oprimidas) ultra megaoprimidas (às vezes da vontade de recorrer às ordens numéricas de grandezas para vocês entenderem). Isto tudo é sobre mim, sobre minha família. Por isso muita coisa que eles querem jogar no lixo, por não ser radical, importa, pois é uma questão de sobrevivência.

Eu nunca vou sossegar e me silenciar enquanto a hipocrisia (vulgo discurso contraditório e omisso) de vocês não ficar exposta. Este é o papel desse blog.

O interesse do Negralismo nessa questão é de, além de servir como exemplo de táticas maquiavélicas nos movimentos sociais – que são parte da sociedade não à parte, é de defender políticas convenientes para nós no feminismo radical. Porque o papel das brancas é preparar o espaço que queremos ocupar.

E uma coisa que eu não disse, e que é de suma importância para nós, negralistas, é entender o por quê da abertura das próprias feministas “radicais”, antes de tudo mulheres brancas, a esses homens marxistas.

Motivo número 1: Blindagem anti-ataque queer. Pois eles são homens. Isto é um caso de fêmeas pedindo socorro a machos. Demagogias à parte, la vie est très simple comme ça.

Motivo número 2: Conveniência do discurso reacionário ao movimento negro e seu apontamento de supremacia branca. Sim, brancas estão fugindo para as leituras marxistas com o único intuito de se sentirem em condições iguais às negras e terem que desconstruir nada. Nesse tipo de marxismo, você tem culpa de nada, fica apenas sentado aí, vista uma camisa vermelha, e coloque a capa do barbucho no face, porque a culpa de tudo é do Obama e da Beyoncé. Você é vítima de negros. E o único inimigo são os ricos.

O marxismo no feminismo radical, além de desvirtuá-lo, é muito conveniente nesse ponto, por isso esse sincretismo, que no fim é um retorno à estaca zero na História. Pois, por increça que parível, esta não é a primeira, e nem segunda vez – talvez seja a quarta ou além – que brancas se aliam aos seus patriarcas fugindo da desconstrução da Raça.

Só que Raça, quer queiram, quer não, continua sendo a pauta mais urgente do século XXI, assim como foi do século XX. E eu não sou a única a pensar assim. Não vou lembrar dos autores fodas que já li dizendo isso, mas me sinto segura em saber que uma parcela, branca inclusive, acadêmico europeia, também pensa assim, ainda hoje.

Eu disse, eu disse em 2014, que Racismo é a causa do Colapso do feminismo. Mais uma fucking vez.

Eu não acredito em Revolução.

Publicado: 31 de julho de 2016 em Sem categoria

Para caso isso ainda não tenha sido percebido.

Para mim, Deus e Revolução são duas invenções humanas.

Acho plausível quando se fala em transformações, graduais…

Primeiramente, quero compartilhar e deixar registrado o meu sorriso de ponta à ponta quando a Hellen Lobanov descreveu a maternidade francesa. Eu gritei: “Hellen, por isso tenho tanta afinidade com a França, eu sempre fui uma mãe francesa”. Mas vamos aos questionamentos, estou com sono.
Como temos um planejamento de luta contra o patriarcado e o gênero, vendo creches como solução para as mães?
As creches são soluções para as mães sim, são. Minha pergunta foi provocativa, apenas. Mas… Quem gosta de cuidar de criança? A História tem mostrado que ninguém (risos). E me destaco como uma dessas pessoas que compõem a imensa maioria da humanidade.
Mas creches são soluções? Ou atalhos?
Acho que atalhos, né? Mas que tipo de mulher quer trabalhar numa creche? Quanto ela ganha? E por que mulher, né?
Eu não tenho respostas, hoje, só questionamentos. E esses questionamentos dificilmente se partirão dos dedos de privilegiados.
Se gênero deve ser abolido, quem cuidará de crianças? Por que cuidado de criança como papel social de uma classe sexual já é existência de gênero. E na natureza vemos gênero.
Daí, facilmente eu leria como resposta, caso eu não me antecipasse citando a mesma: “quando gênero é abolido, os cuidados das crianças ficam também a encargo dos homens…”.
Ué, então a desconstrução do machismo do homem é possível e predita na teoria ou proposta de abolição de gênero, e não acontece apenas por parte da utópica união de todas as mulheres… 
Estou com sono, releve.
Para não existir Gênero, homens deveriam também cuidar de crianças, certo? Mas homens cuidando de crianças precisam não ter inclinações agressivas e de pedofilia, certo? Lembrando que nas outras espécies, filhotes apanham dos adultos, para aprenderem ou serem punidos por mau comportamento. A natureza… é amoral. Moral… é uma coisa inventada.
Bem, se homens podem ser desconstruídos… homens podem ser desconstruídos…
Só que ele é um estuprador em potencial por natureza…
(Estou mesmo apenas presa num ensaio de questionamentos, sério. Não necessariamente defendo essas premissas).
Solanas dá a solução utópica e de grande fé na tecnologia, de S.C.U.M. Bem, esses tipos de soluções são tão… baratas. Não exequíveis. E, enquanto isso, bilhões de mulheres vão padecendo e alimento o sistema com filhotes…
Voltando às creches… Existe alguma proposta (dentro do feminismo) que concilie abolição de gênero e criação de crianças? As creches, com as mulheres lá, pobres, marginalizadas, exploradas, são medidas paliativas? Essas mulheres serão recompensadas neste caminho de revolução de liberdade em prol das mulheres?
Eu, como negralista, vejo a importância da emancipação do homem negro, dentro das comunidades negras, porque entendo a dependência das mulheres negras desses mesmos homens na luta contra a supremacia branca e seu imperialismo. Vivemos numa guerra de clãs patriarcal, não? Ou estou errada?
E esse ver importância, não significa carregá-lo no colo. Isso colidiria com o egocentrismo. Mas isso está dentro da questão de tática e alianças.
Ao meu ver, creches alimentam gênero. Mulheres limpando a minha casa para eu fazer meu doutorado e “lutar” por elas também. Fora que implica fé, né? Fé de que um dia os esforços dela serão recompensados… rs
Sinto-me muitas vezes rodeadas de religiosos.
Como é isso de misandria e criar meninos? rs
Sério que já estou lá na frente, no paraíso feminista de mulheres abolicionistas de gênero mas sororárias e criando a prole, fruto de uma cópula hétera, de outras mulheres… E, os homens… ou desconstruídos, sem praticar violência e estupro… ou longe. E elas criando meninos… E eles virando os opressores das mesmas. E continuando vivendo livres por não terem que ficar presos à crianças.
Vai dizer que só eu sou a bugada quando penso nessas coisas?
Eu não me acho a única, apenas a primeira a admitir, após dois anos de covardia, que…
Ladies…
Nós temos um paradoxo…
É… eu não sou ovelha para seguir… eu questiono, logo existo.

Por IVALDO MARCIANO DE FRANÇA LIMA, doutor em História da África.

O pan-africanismo é um complexo movimento de idéias, teorias, arranjos e visões de mundo surgido na primeira metade do século XIX, a partir dos contatos entre negros da Grã-Bretanha, Antilhas, EUA e lideranças do continente africano. Trata-se uma resposta às teorias raciais desenvolvidas ao longo do século XIX, a exemplo da poligenia e do darwinismo social (HERNANDEZ, 2005; APPIAH, 1997; DECRAENE, 1962). O pan-africanismo tem como uma de suas principais questões a idéia de que a África deveria ser transformada nos Estados Unidos da África, preferencialmente usando a língua inglesa e professando o cristianismo. Os teóricos do pan-africanismo inventaram a África una, homogênea e indistinta, que ainda hoje está presente nos textos de vários autores africanistas, que tratam o continente no singular, esquecendo de suas diversidades e realidades distintas. Esta África, nessa perspectiva, é tida como a origem de todas as práticas, costumes, culturas e religiões dos negros e negras da diáspora. Nesse sentido, o pan-africanismo pode ser apresentado como questão para entender parte dos movimentos negros da atualidade, além de ser fundamental para perceber sua persistência em diversas obras recentemente publicadas, que ainda apresentam o continente africano como uma realidade una, homogênea e dotada de um único ponto de vista, religião, costume e práticas. Ou seja, em outras palavras, o pan-africanismo inventa uma África para os africanos e propicia a idéia de que este continente é sinônimo de negro, formada só por um povo, os africanos, além de dispor dos negros da diáspora como parte deste continente, daí, o fato de terem sido os pan-africanistas um dos responsáveis pelos movimentos de “retorno” dos negros recém emancipados, ou já livres e vivendo há algumas gerações nas Américas para o continente africano (HARRIS; ZEGHIDOUR, 2010; SOUZA, 2008; M´BOKOLO, 2007). Pode-se afirmar com isso, que os pan-africanistas viam nos negros da diáspora uma condição de igualdade racial em relação aos negros do continente africano, e por * UNEB – Alagoinhas/BA. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 2 isso incentivavam o retorno “para sua casa”, a África. Tal questão suscitou, segundo Richard Ralston e Fernando Mourão, problemas diversos tanto entre os governos da Libéria, Serra Leoa e Etiópia com os articuladores e militantes pan-africanistas, a exemplo de Garvey, Blyden e Turner, bem como dos negros da diáspora com as autoridades destes países africanos, ocorrendo muitas vezes a expulsão ou a simples recusa da entrada dos “retornados” na África (RALSTON; MOURÃO, 2010; HARRIS; ZEGHIDOUR, 2010). Segundo Elikia M´Bokolo e Leila Hernandez, o “pai” do nacionalismo da África ocidental chama-se Blyden, que viveu entre os anos de 1832 a 1912. Blyden, liberiano de nascimento, viveu parte de sua vida em Monróvia, capital da Libéria, e em Freetown, capital de Serra leoa. Appiah, na obra Na casa de meu pai, mostra que a partir do panafricanismo, sobretudo Blyden, uma África vai sendo gestada enquanto contraponto as idéias de inferioridade racial e o colonialismo. Mas esta África não é diversa, repleta de povos que falam muitas línguas. É, sobretudo, a África, país dos negros, e que de preferência tome o inglês como língua. Além de Blyden, outras personalidades do panafricanismo foram fundamentais neste processo de construção da idéia de nação entre os africanos de modo geral. Crummell, Du Bois, Aggrey e Garvey são outros nomes possíveis de serem citados como construtores deste processo (APPIAH, 1997; M´BOKOLO, 2007; HERNANDEZ, 2005, 2002). Independente das questões a respeito dos retornados, e de como os panafricanistas fundamentaram a construção discursiva de uma África homogênea, sem fronteiras e sinônimo dos negros, importa afirmar que enquanto movimento de idéias, foi fundamental para a constituição de consciências nas elites culturais africanas em relação às questões econômicas, sociais, políticas e culturais do continente. De tal modo, pode-se afirmar que para entender os Estados nacionais africanos, é preciso compreender os debates que foram suscitados nos congressos do movimento Panafricanista, além dos processos de independência do continente africano, que resultou na formatação dos nacionalismos da atualidade (KODJO; CHANAIWA, 2010; DU BOIS, 1999). O pan-africanismo, nesse sentido, contribuiu para a construção da idéia de nação entre os africanos. Dentre os muitos líderes pela independência dos países africanos, parte significativa era de intelectuais que sofreram a influência do pan-africanismo, a Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 3 exemplo de Jomo Kenyatta (Quênia), Peter Abrahams (África do Sul), Hailé Selassié (Etiópia), Namdi Azikiwe (Nigéria), Julius Nyerere (Tanzânia), Kenneth Kaunda (Zâmbia), Kwame Nkrumah (Gana), Amilcar Cabral (Cabo Verde e Guiné Bissau), Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade e Viriato Cruz (Angola) e Samora Machel (Moçambique). Grande parte destes homens, a exemplo do líder da emancipação de Costa do Ouro (atual Gana), Kwame Nkrumah, estudou nas universidades dos negros norte-americanos. Trata-se, portanto, de um movimento de idéias que cobre um longo período, desde a primeira metade do século XIX até os anos 1960 do século XX, momento em que o pan-africanismo não consegue sofrer solução de continuidade e de implementação, sobretudo após o golpe em Gana, e a derrubada de Nkrumah da presidência deste país (ASANTE; CHANAIWA, 2010; KODJO; CHANAIWA, 2010). Importa para nossa discussão, nesse sentido, o fato de que ainda hoje o continente africano aparece, com recorrência, nos textos e discursos de militantes negros brasileiros, aludindo à idéia de uma África una, homogênea e desprovida de fronteiras, diversidade de línguas e povos. O pan-africanismo propiciou a existência dessa África indistinta. (Pode-se conferir a relação linear entre África e Brasil, como se tudo o que fosse construído pelos negros constituísse africanidades, ou permanência deste continente no país, nos seguintes trabalhos: ARAÚJO, 2008; D´AMORIM, 1996; FARIAS; NASCIMENTO; BOTELHO, 2007; MATTOS, 2007; MELO; BRAGA, 2010). Percebe-se, nesse aspecto, que tais idéias ainda continuam dotadas de força significativa na diáspora, sobretudo no Brasil. Pode-se afirmar, inclusive, que o texto da lei 10639/2003, no que pese seus aspectos positivos, também sofre as influencias desta indistinção entre o que é da África e o Brasil, deixando implícito em partes de seu texto a idéia de que há descendência direta entre os negros e negras deste país com os africanos.

Leia mais no artigo de 13 páginas, AQUI.

INTRODUÇÃO

É incrível. Está bem explícito que o maior papel de gênero é justamente aquele rejeitado pelos homens, mesmo os aficcionados e fetichistas da feminilidade – o maternalismo.

E como maternalismo vou definiar aqui o conjunto de práticas e comportamentos que mulheres programadas desde a infância insistem em praticar sob a ideologia de abnegação em prol de outrem.

Eu sou negralista, mas antes de ser negralista, eu sou egocêntrica inteligente. Se você não entende o que é o egocentrismo inteligente, evite julgá-lo, porque as chances de falácias do espantalho são altas. Mas pelo conceito de E.I, o maternalismo ocidental é posto em xeque.

Sinto-me sozinha nessa, pelo menos aqui no Brasil. Só conheço, via rede, mães pamonhas e fanáticas, cegas e patéticas. Mortas. Idólatras. Por isso mortas. São vitimas de lavagem cerebral, e as raízes não são genéticas, nem hormonais. Mas ideológicas.

Vivenciamos então um paradoxo, onde as próprias vítimas defendem com unhas e dentes seu estágio de prisão, se tornando um produto mais patético ainda. Porque há diferença entre o escravo que mantém a lucidez sobre sua prisão e aquele que se aliena dela e tem fé de que aquilo não é uma prisão, mas um local onde todos  deveriam estar. Pelo menos ele merece estar. Não há muita diferença entre mães, religiosos, feministas pró-feminilidade e prostitutas pró-prostituição. Para todos esses “o problema não é” a religião, ou a feminilidade, a mercantilização do sexo, ou a criança. É como alguns indivíduos ou a sociedade se comporta.

Maternidade é contexto. Um contexto social. E como tal deve ser revisado. Por quem? Por mulheres. Mas algumas mulheres sofrem mais o peso da maternidade que outras. Pois já nascem presas a nichos sociais alienantes e mais misóginos que outros. E… estão inseridas num processo histórico e herança cultural distinta e atrasado pelo subdesenvolvimento. E, claro que para quem caga para as disparidades raciais, não compreende a materialidade, a concretude, do que eu quero dizer.

Então, eu tenho discutido isso, politicamente isolada e silenciada, sozinha. Como o feminismo tem encarado a maternidade? Eu não sei. E já não quero saber. Mas na práxis tem sido desastroso. Superficial e maternalista. Como o negralismo vê a maternidade?

Bem diferente de como brancas e mentes brancas têm visto.

Negralismo não é feminismo, não é reduzido a gênero. Ele é sobre tudo. Pois a negra é um homo.

E como a gente vê importa? Sim, importa. Pois os problemas sociais, os vícios brancos, e os vícios dos homens, afetam em peso e sobrepeso a nós.

Maternidade é um contexto. Um contexto social. E como tal deve ser revisado e questionado. Ela não é absoluta, não tem um modelo absoluto. São várias culturas e várias formas de mulheres serem organizadas para cuidar de pirralhos. Este é o principal papel de gênero das fêmeas humanas, cuidar de crianças. Não importa se você renega esse papel e não suporta dois minutos de histerismo infantil, você tem a obrigação de achar isso lindo e dar assistência ao novilho.

Eu não pretendo esgotar a relação mulheres-crianças num único texto. E não por me faltar conteúdo, mas por isso ser exaustivo. Eu sou escritora de sci-fy, não professora de brancas irresponsáveis com tudo e o meio. Brancas que projetam todo o seu umbiguismo na figura infantil, o token do seu ego egoísta. A maternidade ocidental, que tomo a cautela de cunhar como ocidental por pragmatismo e precaução, não por ignorar que a bosta é universal, é uma escola de parasitismo. A maternidade é um processo de reificação da mulher. Mães são produtos sociais patéticos que escolarizam seus filhos como regentes. Elas, alienadas do direito de ser e se mover, transferem todo seu anseio sobre essa existência negada ao filho. Parece um mero caso de opressão feminina, mas o fato de ser uma opressão não exclui as motivações de cunho individualista que transformam tal ser num escravo devoto.

Capturar

Sabe o branco de classe média que defende o rico? É fácil por um prisma vê-lo como um mero escravo. E de fato há leituras e literaturas que colocam o branco de classe média, independente se for neoliberal ou marxista, como um escravo do sistema. Mas os neoliberais defendem o capitalismo. E por quê? Por que são ingênuos demais? Ser burro não é sinônimo de ser ingênuo. Vamos separar esses dois conceitos. Burrice e ingenuidade. Esses indivíduos são burros e românticos, sim, mas são movidos pelos próprios vícios capitais. Eles se projetam em um dia serem ricos. E por isso defendem a existência de classe e riquezas. Tem todo um lance de ignorar a matemática estatística e probabilística, e etc, mas… burrice é isso. E muitas decisões burras são tomadas por interesses egoístas nossos. Ou preguiçosos.

Voltando às mães, seres canônicos, toda essa defesa e abnegação exarcebada delas além de falsas são meras projeções de seus próprios egos falidos nas crianças. A mãe anseia anarquismo, ou regência (tanto faz), ser deus. Mas a sociedade veta a concretude desse desejo dela. Então… ela vê seu filho como uma extensão dela. Ou ela mesma. E logo aquilo que todos devem admirar, se prostar, ter paciência e complacência, se importar. Isso parece muito com devoção, nobreza e humildade, mas é egoísmo.

A adulação de jovens e crianças é uma coisa que varia de sociedade para sociedade, mas se encaixa perfeitamente, tal como luva, nesta sociedade de consumo. Mas eu acho irracional que um ser que em nada se provou útil e importante para a sociedade ou comunidade mereça tantos esforços e atenções voltadas para si, enquanto velhos, idosos, de uma longa vida de feitos e servidão, sejam ignorados até a morte. Para mim é uma inversão de valores. E para algumas culturas não ocidentais também.

Eu não pretendo esgotar este tema, pois é um tema angular. E como tema angular defino aquele que, se revisado, pode desencadear uma série de revoluções filosóficas, ideológicas e políticas. Pois defendo que maternidade é o principal papel de gênero.

Temos que discutir também o quanto mulheres que não querem ser mães acabam sendo coagidas a ainda assim cuidar de crianças, enquanto homens continuam livres. É bizarro que justamente no meio feminista isto seja reproduzido. Mães ficam revoltadas com a recusa de outras mulheres em não se importarem com crianças. Cada criança tem uma mãe e um pai. Qual a obrigação de outras mulheres de cuidar de crianças abandonadas pelo pai? Zero. E por que isso é cobrado delas? Vai se dizer que não é cobrado. Mas, retaliação e demonização é um tipo de cobrança.

Enquanto isso, tantas mulheres negras precisam de assistência de mulheres mais abastadas. Mas elas recebem assistência? Não. Seus filhos recebem assistência? O oposto disso. E isso não é cobrado.

E quando observo a cor dessa mulheres revoltadas com a falta de babás e assistentes para seu projeto hétero falido de vida, eu fico impressionada. Me parecem madames que entraram no feminismo mas estão sentindo falta daquilo que sempre tiveram: concubinas e lacaias domésticas.

No negralismo, a maternidade é discutida tão a fundo, que até na hora da gente discutir as motivações das mulheres em ter filho, temos que fazer recorte. Recorte das brancas. As razões pelas quais elas ainda têm filhos é diferente das nossas. Os efeitos e peso de um filho na vida delas é muito diferente das nossas. O produto final, que elas chamam de filhos, é diferente dos nossos. Até crianças são classes e categorias. Não somos obrigadas a gostar de todas as crianças. E tampouco nos importarmos com todas elas. Temos prioridades. Ao menos deveríamos ter.

Quando eu disse acima que a maternidade é uma escolarização de parasitismo, estou fazendo uma crítica na maternidade tal como ela é: pedocêntrica (na verdade, misógina), debilitante e mortalmente perene.

E ainda que eu mesma advogue que a maternidade é assim porque homens existem como predadores,  e se eles não existissem, as crianças seriam livres para serem livres, isso não deve ser encarado com fatalismo, mas antes deve-se ponderar as formas de sairmos deste entrave antropológico ginocida.

E os pontos que já disse aqui é que:

  • Ter filhos não é uma necessidade do indivíduo, mas da sociedade, a fim de mantê-la.
  • Ter filhos não é vantajoso para o indivíduo, e para a mulher é um sacrifício.
  • As mulheres deveriam usar bem seus cérebros e tomar decisões racionais, ou seja, que vão trazer benefícios a longo prazo, para elas, claro.
  • A maternidade, por isso mesmo, é compulsória.

Mulheres aprisionadas ao maternalismo é ultraconveniente para o capitalismo. Elas colocam indivíduos ora mão-de-obra barata ou ora consumista no mundo, e estes sustentam o sistema. Só que o fato de as mulheres estarem aprisionadas é o que as mantém afastadas da vida política, as mantendo domesticadas com a prole. Enquanto homens ocupam as ruas para praticar violência e exploração de territórios e recursos.

A maternidade e o maternalismo tem que acabar, porque é ela que alimenta essa sociedade. Antes de mulheres terem filhos, elas têm que exigir que a sociedade esteja desintoxicada, pois esses novos indivíduos serão como a sociedade, serão frutos dela.

Mulheres e seu maternalismo, seu pedocentrismo misógino, estão entravando as discussões ultra-necessárias e urgentes sobre não apenas a compulsoriedade da maternidade, mas o caráter nocivo dela. Caráter, este, como eu já desenhei, não absoluto, mas construído pela sociedade.

Se mulheres forem inteligentes, como lutam para ser, elas vão compreender a importância de se recusar ao maternalismo, para que a sociedade aprenda a dar valor ao papel central e vital da fêmea nesta espécie e se curve totalmente para condições ideais de liberdade e segurança para mulheres e crianças.

Amar crianças, no fim, não é abrir as pernas para parir e ficar aparelhando movimentos de mulheres com advocacia de crianças, mas se recusar a alimentar este sistema com escolarização de parasitismo, consumismo desenfreado e domesticação de mulheres.

Maternalismo é o nosso principal papel de gênero, e ele, junto com as Marias, têm que morrer.

Textos relacionados:

Sabe o que o seu filho não é? O Centro do Universo

Crítica à solidão materna

Maria tem que morrer

 

MATERNIDADE COMPULSÓRIA

Publicado: 30 de junho de 2016 em Sem categoria

Uma coisa em que negralismo se difere do feminismo é que não vemos mulheres como seres canônicos corrompidos pelo Patriarcado.

E algo que o feminismo jamais faria seria responsabilizar uma branca por um ato de favorecer o machismo. A práxis dele faz isso com negras. Elas sim sofrem constante slutshaming e fiscalização de riqueza.

Hoje, foi um dia comum de trabalho e transporte coletivo que foi aborrecido por um cartaz de cinema, de um filme estrangeiro chamado “Como era eu antes de você”. Enredo machista que me fez bocejar. Mas o que me chamou atenção foi a aparência da vítima, parecia uma menina, uma adolescente de dezesseis anos.

1

É mais um filme branco baseado num livro feminino branco de sucesso. Ok. E, pelo sotaque britânico, talvez até seja bom.

Mas aí eu coloquei uma música que eu tava tentando lembrar a um bom tempo para tocar no Youtube e eu nunca tinha visto o clip por preguiça: Grimmes.

2

Tem 38 milhões de views no Youtube. A moça na época era bem nova mesmo, 24 anos, mas a temática é nitidamente erotismo adolescente. E acho que não é o único vídeo em que ela investe nisso.

3

Nunca consigo assistir esse clip até o final, até agora não assisti na íntegra, mas só de caçar esse trecho já foi tenso. O que a artista quis dizer? Hum… Não questionemos a arte.

[falta um breve trecho aqui perdido e esquecido sobre os clips da Sia]

Mas me lembro dos tantos comentários pedófilos dos homens no vídeo. E eles continuam. Contudo, parece que muita mulher reclamou do gatilho do vídeo.

sia1.JPG

4

E ela de fato pediu desculpas por tais efeitos de sua “arte”.

5

Mas não retirou o vídeo, ok.

Chandelier, seu vídeo mais badalado, também explora a imagem de uma criança, a mesma inclusive, em posições favoráveis para seres nada, nadinha, nada fictícios, parte do imaginário paranoico de mulheres combativas da pedofilia.

Será que nunca passou pela cabeça dela o quanto punheteiros ficam em frente a esses vídeos explorando a imagem desta menina? Os comentários dos próprios no youtube não mentem.

sia

Apenas há 3 dias atrás… E não foi o primeiro que eu vi, num espaço de um ano.

7

Quantos comentários desses não teve o vídeo e os outros? Só as duas ou três vezes que a Keli acessou que eles estavam lá, fresquinhos? Será que a Shia está mesmo preocupada com a imagem desta menina e de todas as outras construídas nas mentes da maioria dos homens que acessam o vídeo?

Se lhe rende tanto dinheiro, não. E não sou eu que digo, mas a permanência do vídeo lá.

8

Neste vídeo da música Alive (desculpa, eu não ouço Sia ), fãs reclamam da ausência da outra menina dizendo que amam a música mas o vídeo é chato e que a outra é melhor, mesmo esta, de menos idade ainda, estar em performance de luta oriental, com seus trajes largos e não-eróticos.

9

 

Os views também são baixos, menos de 10% do outro. O que nem posso avaliar dado que não conheço as músicas dela.

Outra que eu discutiria a respeito seria a Lana Del Rey, mas acho que, pelo menos em inglês, encontra-se bastante material crítico. Lana é fã declarada do romance pedófilo Lolita, tal como muitos pedófilos também, e parece viver uma eterna nostalgia de sabe-se o que lá do seu passado em seus trabalhos musicais (vi algumas entrevistas dela porque da LDR eu já fui fã). Hoje a acho mais uma branca horrorosa. Não sei dizer se ainda curto, francamente, nunca mais ouvi. Cansei de ouvir

Lights, camera, action
You know I can’t make it on my own
Put me in a movie
(Come on, you know you like little girls)

De batida interessante, mas letra perturbadora.

A própria Lana admite que seus primeiros álbuns são inspirados em Lolita. Ok. Mas nem existe cena assim, envolvendo câmeras, e menininhas. Lana parece ter outras referências além do romance literário…

Ela já cansou de ouvir críticas sobre isso. E até se disse antifeminista. Por que será? Pelo racismo do movimento que não era…

Bem, vamos para a tão conhecida Katy Perry e seu California Girls.

Am I paranoiac?

10

 

Nem vivemos num mundo onde homens fantasiam sem dó nenhuma meninas e adolescentes. Temos mesmo, que, já adultas, responsáveis pelos nossos atos, alimentá-los com essa sordidez de investir em fantasias onde parecemos… crianças…

Fazer os paus dos homens subirem nos passando por… crianças? Colegiais? Ou as que brincam na pracinha e gostam de doces.

Colaboramos e muito com o imaginário dos homens de que as meninas são bens de consumos deles negados pela perversa e incompreensiva sociedade (materna) mas substituídas por nossa performance de sermos como elas.

Será mesmo que reside tanta inocência (leia-se acefalia) em nós de não percebermos esta cultura descarada?

Bem, ou são acéfalas, ou são cínicas. Uma terceira opção eu não concedo.

E como sabem muito bem contar dinheiro para comprar os patéticos sapatos ou maquiagem da MAC, acefalia não convence.

Ok, burras, mas burras com vantagens financeiras. Tal como muitos homens também fazem. Há homens que fazem péssimas escolhas por ganância, por querer seguir o caminho mais fácil, que mexa menos com a zona de conforto dele. Contando com a sorte de que será um daqueles raros casos de sucesso.
E essas são as mulheres de sucesso.  Endinheiradas, famosas e veneradas, lotadas de segurança, vivem numa verdadeira redoma em relação à maioria das mulheres que só de colocar os pés fora de casa (ou mesmo dentro) sofrem abusos. Não dão um passo sem medo. E receio.

Essas são as brancas, as com acesso à informação, as que se abastam de heranças acumuladas pela apropriação e anulação de vida de povos afros e indígenas, mas se dão ao luxo de não moverem uma palha em busca de intelectualização. E, quando fazem, se provam piores ainda, egoístas e cínicas com legitimidade (falo das feministas, vulgo, as politizadas e nata da sociedade feminina).

Vocês não precisam mais mesmo engravidar. Fazem para dar o golpe da barriga.

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Vocês não precisam mesmo se hipersexualizar. Fazem porque não têm o talento que tem as negras.

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Porque branca, quando tem talento, é valorizada fácil.

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Mas negra tem que se desdobrar para ser Deus.

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E sem poder ser negra.

Brancas não precisam de tanta baixesa em pleno século XXI…

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Mas fazem por mera ganância. Consumismo.

O mesmo consumismo que está gerando isso:

Dana.

E isso.

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E ainda isso.

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Troquemos cada duas brancas, por um homem indígena, e o mundo ficará melhor.

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E o alerta persiste há já cem anos:

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Reconhecer que vocês não estão em condições de criticar todos os homens, é o primeiro passo que vocês deveriam dar para a mudança. Mas, ao contrário disso, persistem na desonestidade e omissão de como vocês são senhoras do capitalismo, e grandes destruidoras do meio ambiente. Uma praga que não para de se alastrar pelo planeta desde 1500.

Se não fossem as estatísticas das mulheres não-brancas, as queixas de vocês contra os homens não-brancos seriam piada.

E sua geladeira persiste lotada de carne. E seu cantinho de sacolas nada-ecológicas.

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Não existe Burguês Mau

Publicado: 20 de junho de 2016 em Sem categoria

Esta é uma página negralista, um movimento oriundo da desromantização em relação à toda a Esquerda devido à marginalização de mulheres negras na práxis de militância esquerdista.

Um dos diferenciais negralistas é o não-maniqueísmo. Diferentemente das feministas, não dividimos mais o mundo em homens maus, mulheres boas. Mulheres também são más. E homens também conseguem praticar o bem.

Seguindo a mesma lógica, mas menos surreal ainda, e facilmente aceita pelas próprias feministas (pois mulheres também são burguesas), não dividimos o mundo em burguesia má vs pobres humildes e bondosos.

                  Esta maneira de encarar o mundo é tão arcaica que é vergonhoso em pleno terceiro milênio estarmos investindo nisso. Raciocínio indutivo tem suas limitações e devemos saber lidar bem com elas. Aceitá-las e não ignorá-las, mas a partir das suas manifestações reconstruirmos ou abandonarmos antigas visões que não oferecem um modelo mais satisfatório aos fenômenos das dinâmicas de cunho sociais é o que deveria ser feito.

Mas por que temos tanta dificuldade em lidar com o não-determinismo e não-dicotomias? Minha suspeita é quanto à nossa modelagem mental, muito polarizada ou reparticionada em ferramentas de conhecimento. A gente reparticiona para fins práticos e nos alienamos da natureza integrada dos objetos estudados, que acabam não pertencendo ou se limitando a nenhuma área específica de conhecimento. Isto se chama alienação, o ato de esquecer ou ignorar a origem/contexto de um pensamento vendido como verdade.

                       E nenhum campo é mais fértil para a alienação do que a mente de um indivíduo viciado em se crer desenganado. Essa tal crença de desengano na verdade é só mais um aspecto da vaidade do próprio indivíduo, que tem como atributo de valor de que o se provar inteligente é nunca errar. Ledo engano e atraso cognitivo.

Mas as coisas não são mesmo tão simples assim, a nível individual, nope. A sociedade é nada mais que o somatório de indivíduos –  normatizados ou desviados. E os indivíduos normatizados se impõem contra quaisquer discursos que aparentem ameaçar a norma vigente de pensamento. Por quê? Porque mais importante que o saber é o aparentar saber¹, e a sociedade também tem sua vaidade. Principalmente quando ela tem esse caráter tão potente de literalmente torturar e matar indivíduos. Se a norma se prova equivocada ou simplesmente desonesta², a sociedade tem culpa. E deveria pedir desculpas. E em ressarcimento. E pelo pecado capital da preguiça³, quem quer dispender/restituir energia e recursos a outrem? Por isso inventamos o judiciário…

¹Sociedade do espetáculo

² Equívoco difere de desonestidade intelectual,
pois o primeiro é sem consciência da falha de raciocínio,
e a segunda é deliberada e dissimulada para fins de proveito
em detrimento de um indivíduo ou grupo.

³ A preguiça é uma manifestação de um organismo em busca de poupança de energia.
Ela é o principal impulso do parasitismo e exploração de humanos
contra eles mesmos e contra os animais, se utilizando
muitas vezes da desonestidade física e intelectual.

Da mesma forma, é compreensível e previsível o desconforto com uma visão não maniqueísta sobre o mundo, ainda que partindo de grupos desviantes da normatização, pois ser desviante da normatização não significa ser preciso. Assim como a normatização não carece de plausibilidade.

E hoje é justamente uma mulher negra, nascida, criada e ainda atrasada pela favela que vem “em defesa” da burguesia. E por que será que justamente um indivíduo tão em desvantagem e com um histórico tão pesado em injustiças e violências sociais lança esse texto aparentemente tão gol contra “à luta” contra a desigualdade social? Olhe o nome deste blog e deixe sua imaginação fluir.

A teoria é linda e motivadora. Já a práxis é suja, tóxica e desmotivadora.

Na Física também existe a teoria e a prática, mas a primeira nunca se sobrepõe à segunda. Físicos se subordinam, com humildade, à regência das contradições que as práticas lançam sem dó contra as teorias. Eles não ignoram os dados divergentes e os classificam como “casos isolados” ou “de pouca relevância”. Por isso Física é ciência e produz tanto poder.

                          Mas nas teorias sociais, teóricos e devotos se apegam com zelo e amor à teoria ignorando todas as contradições e evidências contrárias da práxis. Físicos são forçosamente humildes (pois sem humildade seus resultados ambicionados não movem motores ou circuitos), teóricos sociais e seus devotos são arrogantes e românticos. A práxis deveria mesmo ser mais ouvida que a teoria. E fazer isso demanda humildade.

Mulheres apreciam o feminismo até onde ele as colocam como seres superiores e canônicos. Brancos “não-burgueses” fazem o mesmo com o chamado marxismo. E assim também os santos homens negros no movimento negro. Para mim que nasci e cresci na favela, numa enorme favela, em zona intensa de conflito e risco social, uau, a teoria do bom camponês e do mau burguês nunca me desceu. Porque os camponeses não eram bons. Tampouco humildes! E os burgueses eu nem conhecia.

Na favela os conflitos humanos, oriundos de desonestidade, vaidade, inveja e competitividade rolam soltos. E se você for comparar são mais correntes (não intensos, correntes) do que dentre as outras classes¹ (tive o privilégio de morar por 9 meses em condomínio fechado de classe média tupiniquim e nem se compara a uma hora na favela). Então, o que eu deduzo é que eu não sou mero desvpad nessa tentativa frustrada de engolir discurso maniqueísta da Esquerda de pobre humilde e injustiçado e rico mau e arrogante.  Pobre vai ter dificuldade de aceitar esse discurso, e vai fugir dele, pois ele sofre nas mãos do outro pobre, e tem histórico de rancor contra ele. Da mesma forma, as mulheres bonitas são as mocinhas de nobre coração e as feias são bruxas não é um discurso tão diferente deste. É da mesma natureza e tem o mesmo efeito nocivo na modelagem das nossas mentes.

É mais preciso, e mais confortável para a minha mente de física, ler coisas honestas e em destaque como “algumas pessoas boas são pobres e algumas pessoas boas são ricas”. Mas até esse discurso é falho e superficial. Primeiro que bondade não está bem definida (e nem pode). Segundo que se formos fazer uma análise quantitativa e qualitativa de manifestações de empatia ao próximo em comunidades abastadas e miseráveis, vamos nos frustrar e favorecer o senso comum com nossos dados vazios. Brancos e ricos são mais empáticos e unidos do que pretos e pobres. Eu suspeito até que haverá um fenômeno interessante: dentre as camadas intermediárias, as classes médias mais baixas se mostram mais empáticas e unidas do que as classes médias altas. Inverte-se o fenômeno. Minhas suspeitas.

                         Mas, ao contrário do que parece, não precisamos morrer frustrados por não elaborarmos uma teoria determinista que prove que pobres são bons e ricos são maus, ou mulheres são boas e homens são maus. Podemos ser humildes e admitirmos que estamos fazendo perguntas erradas por um vício cosmogônico em relação à humanidade e à natureza.

Nosso primeiro problema é: a nossa romantização da natureza humana que nos faz insistir na tese de que, sem os sistemas “corruptíveis” dos humanos, esses mesmos viveriam em paz, união e harmonia. E se dê alguns segundos agora mesmo para fazer uma autoanálise enquanto relê esse trecho: “nosso primeiro problema é: a nossa romantização da natureza humana que nos faz insistir na tese de que, sem os sistemas “corruptíveis” dos humanos, esses mesmos viveriam em paz, união e harmonia”.

                     Você por acaso achou que eu digo que o inverso é o real? Que sem os sistemas “corruptíveis” viveríamos em conflitos e guerras? Eu nunca disse isso, entende? E minha frase não implica isso. Eis o nosso problema, nós binarizamos as questões. Nós criamos as dicotomias e praticamos o maniqueísmo de pensamento. Nós limitamos as alternativas e perspectivas. Precisamos aprender a soltar mais o ar diante de contrapontos frustrantes, para liberarmos oxigênio no cérebro.

Nosso segundo problema é: nossa romantização da natureza orgânica que nos faz ignorar que a natureza não é nenhuma entidade com propósito e mecanismo ético ou moral. Ela é AMORAL. E nosso problema 2.1 é ignorarmos o que é a palavra amoral, confundi-la com imoral, e nos conformarmos com essa nossa leitura, por mera preguiça que selecionar o termo, clicar com o lado direito do mouse e pedir para pesquisar no Google. A natureza é amoral. Moral é uma coisa inventada por humanos e suas crenças e crendices e variada de sociedade em sociedade.

Nosso terceiro problema é vermos cada indivíduo humano como um ser independente do meio e  com valor moral. Seres humanos são intrinsecamente amorais. Holy shit, eu disse isso no primeiro problema, não? Mas aqui estou enfatizando a relação do ser humano com o meio. Ele é um ser amoral moldado pelo meio. Não há destino biológico para ele, nem como opressor, nem como oprimido, nem como bom, nem como mau. Ele é o que o meio o permite ou o coage a ser. E o meio permite opressores exercerem a liberdade de oprimirem, e coage oprimidos a se manter em condições de vulnerabilidade. E o mais foda de tudo é que o opressor só existe porque o oprimido existe. Se o oprimido deixar de existir, o opressor deixa de existir, dentro do corpo daquele mesmo indivíduo “branco-hétero-cis-rico-alto-magro-23cm”.

Nosso quarto problema, que tem muito a ver com maniqueísmo e binarismo (the fucking same shit), é nossa incapacidade de lidar com eventos probabilísticos. Duvida? Pergunte a Werner Heinsenberg.

E agora vem a parte em que eu sintetizo tudo e faço vocês me odiarem por tanta aparente, mas nada inocente, “embromação”.

Não existem indivíduos bons e nem indivíduos ruins, existem indivíduos com oportunidade de exercer o oportunismo LATENTE em si e todos nós.

A ocasião faz o ladrão é uma frase de múltiplas leituras, ok, mas uma delas pode ser esta. As condições ambientais e sociais favorecem que a natureza humana latente em TODOS NÓS (isso que não entra nas nossas mentes desonestas e vaidosa), em todos nós, se manifeste.

E quais são essas condições?

Esta, caras senhoras, é a pergunta mais importante. E a resposta é nada nova. Há nada inovador aqui, na verdade. Há destaque, tentativa de hipervalorização de uma perspectiva facilmente omitida por desonestidade e vaidade forjadas de romantismo.

Economia é sobre escassez de recursos, nunca, nunca abundância. E é a escassez de recursos (ou liberdade) que faz com que a nossa natureza latente de desonestidade, egoísmo e falta de empatia de manifeste. Porque como eu disse no Manual da Egocêntrica Inteligente, todos somos egocêntricos. E há nada de imoral nisso. Imoral é existir a ideologia de que as pessoas devem ser humildes. Humildes a quem e por quê? Como se falta de humildade fosse equivalente à arrogância (falsa dicotomia again).

Então, em situação de estresse (carência de recursos) a natureza humana latente de egoísmo e desonestidade vem à tona. E o individualismo faz a festa. Diante da abundância de recursos e liberdades (mútuas, inclusive para dar uma bofetada na cara de quem abusa) a coletividade faz festa, e geral se ama e está disposto a dividir, porque sobra.

E eu só quero que fique finalmente explicitado que não existem pessoas boas no mundo. E nem más. Existem interesses e conflitos de interesses. Existe sistema neural de  ação e recompensa. Aquela militante que fica o dia todo com discurso enviesado limitado somente até onde não se discuta sua colaboração com os problemas mundias (tipo, exploração animal, degradação ambiental, genocídio indígena, escravidão infantil na China e etc…) está sendo omissa por desonestidade mesmo. Porque ela está ali lutando pelos interesses dela, para tornar sua vida mais confortável. Ela só vai até onde o calo parece apertá-la porque ela trabalha sob o sistema límbico de recompensa (eu nunca me disse construtivista, senhora), e tal sistema trabalha muito sob poupança de energia (e recursos).

Então, acho vazio de sentido e hipócrita ficar dizendo o quanto homens e ricos são maus quando EU reconheço QUE nós, mulheres negras, diante das mesmas oportunidades e cenário (de pessoas dispostas a me servir) não seríamos boas o suficiente para abdicar dos meus privilégios – pois sou HUMANA, amoral, com egoísmo e desonestidade LATENTES – e não colaborar ou financiar violência, tortura, exploração, matança e desalojamento de indivíduos vulneráveis.

zxzxz

E ainda QUE encontremos o tão sonhado homem-branco-cis-hétero-rico-jovem-magro-alto-inteligente-não.calvo-gato sendo vegano, ambientalista, investindo fortemente em ações sociais, em ações cordiais com minorias, e plantador da própria maconha (this guy for sure exists), meu… Tudo isso é sobre eventos probabilísticos.

Pois cultura (condições ambientais) é que nem antibiótico numa comunidade de bactérias. Vai afetar a maioria, saca? Mas sempre haverá os resistentes. Os desvios padrões.

Então, como exercício deixo a pergunta:

Sou uma camponesa simples de nobre coração que vai todos os dias ao bosque recolher lenha?

A resposta é que essa pergunta não faz um pingo de sentido pois eu nunca tive oportunidade de provar.

Até que se prove o contrário, eu sou uma opressora em estado de latência.

Compreender isso pode sim, enfim, fazer com que nós olhemos para os nossos próprios vícios e tentemos amortecê-los ao máximo em relação à

Quela sua coleguinha que você não para de invejar e boicotar dentro da sua “militância”.
É imprescindível salientar que as numerosas riquezas naturais da RDC são vitais para as economias ocidentais, especialmente, para os sectores automóvel, aeronáutico, espacial, a alta tecnologia e a electrónica, a joalharia… O acrónimo de colombite-tantalite sobretudo (o Congo que possui pelo menos 60% dos recursos mundiais), é essencial no fabrico dos componentes electrónicos que encontramos nas televisões, nos computadores, nos smartphones mas também em certas armas com o os mísseis! A RDC sofre, igualmente, de um desflorestação maciça. E quais são os principais
importadores? Os EUA, a Europa, a China, nada de surpreendente.
Post traduzido original publicado em 25 de novembro de 2015:
http://ruportugal.blogspot.com.br/2015/11/6-milhoes-de-mortos-no-congo-ignorados.html?m=1
Um genocídio está a acontecer na República Democrática do Congo (RDC). Mais de 6 milhões de pessoas (das quais metade são crianças com menos de 5 anos!), foram massacradas, sob uma indiferença geral e com o apoio dos Estados Unidos e da Europa!

Centenas de milhares de mulheres e de raparigas foram violadas e mutiladas pelas tropas de ocupação. Isto com o único objectivo: para se apoderarem das riquezas minerais excepcionais que se encontram no subsolo do país…

Em pleno centro de África, o Congo é um país rico, cheio de matérias-primas (diamantes, ouro, estanho, gás, petróleo, urânio, acrónimo de colombite-tantalite…), florestas, água,
mulheres e homens, múltiplas tribos reunidas numa nação desenhada por colonos, e que corresponde historicamente a nada. No seguimento do genocídio no Ruanda, os países vizinhos aproveitaram-se da incerteza político-institucional do Congo (país limítrofe do Ruanda), para atacar, de todos os lados, este gigantesco país cheio de tesouros.

E qual a reacção dos Ocidentais face a isto? 
A culpa dos dirigentes americanos e europeus quanto ao genocídio da Ruanda, levou-os a optar por uma politica pró-Ruanda, deixando os rebeldes Ruandeses passar para o Congo, livremente, e podendo fazer o que querem, ajudados pelos aliados da Uganda e do Burundi…
É imprescindível salientar que as numerosas riquezas naturais da RDC são vitais para as economias ocidentais, especialmente, para os sectores automóvel, aeronáutico, espacial, a alta tecnologia e a electrónica, a joalharia… O acrónimo de colombite-tantalite sobretudo (o Congo que possui pelo menos 60% dos recursos mundiais), é essencial no fabrico dos componentes electrónicos que encontramos nas televisões, nos computadores, nos smartphones mas também em certas armas com o os mísseis! A RDC sofre, igualmente, de um desflorestação maciça. E quais são os principais importadores? Os EUA, a Europa, a China, nada de surpreendente.
Como os conflitos parecem ser internos, dizendo unicamente respeito à África, ninguém pode acusar os EUA e as outras potências ocidentais, por se aproveitarem dos recursos e das riquezas do Congo, uma vez que não têm uma intervenção directa. Não há dúvida, que é muito mais prático deixar os povos matarem-se entre si. Em paralelo, os EUA apoiam as ditaduras que se sucedem no Congo e as milícias da Ruanda e da Uganda. É uma maravilha.
A pobreza mantida e as condições de vida miseráveis, as violações constantes (quando a taxa de SIDA é superior aos 20%, nas províncias a Leste do país), a deslocação da população, os ultrajes, as epidemias, etc. Trata-se de uma estratégia de desumanização usada para tornar as vitimas impotentes. Não existem palavras suficientemente duras para descrever esta terrível situação.
Serão os dirigentes ocidentais tão sedentos de riqueza, ao ponto de não intervir num novo genocídio? Sim! Aliás, não só não intervém, como escondem esse genocídio, ajudam com armas e permitem a observação dos treinos militares realizados pelas nossas elites.
Uma coisa é certa: o que se passa no Congo, dos negócios político-económicos ao genocídio, nada é determinado, unicamente, pelos Congoleses, tendo as potências da carnificina, ávidas de riqueza e sem consideração pelos povos, um papel determinante.
A situação no Congo será resolvida pelos Congoleses, desde que a comunidade internacional pare de apoiar os Ruandeses, os Ugandeses e todas as milícias que perpetuam este estado de guerra insuportável. Ao apoia-los, a comunidade internacional está a permitir-lhes a tomada das riquezas de um país, sem qualquer justificação. 6 milhões de mortes, metade das quais, eram crianças pequenas. O mundo que se diz «livre» – ou seja, nós – tem a obrigação de encarar o que essa «liberdade» deixa acontecer. Porquê tanta violência e tão pouco barulho por parte dos meios de comunicação?
 
Será que é suficientemente interessante para o Francês médio? Não será suficientemente sensacionalista, este massacre que se conta em milhões de pessoas? Será que é muito longe de «vossa casa»? Aplicam, mais uma vez, esta odiosa «lei da proximidade»? Qual o motivo da inexistência de reacção? Não há qualquer impacto no imaginário colectivo? Nenhuma indignação? Nenhuma cólera? Nenhuma emoção?
A nossa obrigação como cidadãos do mundo é, portanto, de fazer circular esta informação, para que o mundo saiba, antes que algo mais aconteça. Existem culpados tanto em África como na Europa. O silêncio dos poderosos mata tanto como o barulho das metralhadoras. Ponhamos os assassinos face às suas responsabilidades.
Como podem 6 Milhões de mortos serem absolutamente silenciados, sem qualquer repercussão mediática?
 
Nas cinzas do genocídio ruandês, a segunda guerra do Congo rebenta em 1998, na região dos grandes lagos, a Este do Congo. Através da acção de cerca de trinta milícias locais, nove países Africanos estão directamente envolvidos: a Angola, o Zimbabué, a parte sul da Namíbia, o Ruanda, o Uganda, o Burundi, o Congo, o Chade e a parte Norte do Sudão.
Esta guerra do Congo está marcada: pelas sequelas do genocídio ruandês, pela fraqueza do Estado congolês, pela vitalidade militar do novo Ruanda, pela sobrepovoação da região dos grandes lagos, pela permeabilização das velhas fronteiras coloniais, pela intensificação das tensões étnicas devidas à pobreza, pela presença de riquezas naturais, pela militarização da economia informal, pela procura a nível mundial de matérias primas minerais, pela procura local de armes e pela impotência das Nações Unidas.O balanço é pesado: 6 milhões de mortes, próximo dos 4 milhões de deslocados, campos de refugiados saturados e centenas de milhares de pessoas empobrecidas. As populações não morrem debaixo de fogo. Elas morrem, maioritariamente, de doenças e de fome. As armas de guerra são a violação e a destruição do tecido social.

Para a exploração do acrónimo de colombite-tantalite, esgota-se as populações locais, empobrecendo-as, violando-as, incitando-as a ir embora. Destruindo, para esse fim, as infra-estruturas sanitárias, transformando, assim, a mais pequena patologia mortal. O acrónimo de colombite-tantalite é um cascalho preto que se encontra na lama e que possui um poder económico muito pesado. 80% das reservas mundiais estão na RDC. O acrónimo de colombite-tantalite contem tântalo e todo o planeta quer. Trata-se de um elemento químico adaptado às superligas da indústria da aeroespacial e aos condensadores no domínio da electrónica. Indispensável na produção de tablets e smartphones.
A debandada a volta do acrónimo de colombite-tantalite é organizada pelas grandes multinacionais longínquas, pelos mafiosos e pelos ditadores dos países vizinhos.
Os agricultores da província de Kivu são perseguidos, caçados. A militarização da economia gera a comercialização da violência. As milícias propõe os seus serviços para aterrorizar, torturar, violar. O ódio étnico é exposto, como numa montra, para justificar as acções, mas é só areia para os olhos. A realidade é outra, a violência atende à concorrência comercial.
O historiador David Van Reybrouck, num Opus admirável que se dedicou ao sujeito «Congo» chez actes sud, descreve os mecanismos da região e admira-se com o facto de 6 milhões de mortos não ter qualquer cobertura mediática e nem provocar qualquer indignação popular.
«Ela desapareceu da actualidade mundial porque era inexplicável e confusa. Para cobrir guerras, o jornalismo recorre a um enquadramento de referências morais, nesta guerra do Congo não há um lugar dedicado aos bonzinhos».
E quando, com alguma regularidade, uma reportagem vem descodificar esta guerra, não tem eco, não há nenhuma reacção da opinião pública, é o silêncio da comunidade internacional. Ninguém quer saber e todos se acomodam.(isto nunca será foto de capa do jornal Libération, não sonhem…)

Fonte: Traduzido pela equipa do RiseUP Portugal
(Trad: M Rosário S; Revisão; Cristina Cidade (AT))
em baixo a reportagem Crise no Congo – A Verdade Exposta”, legendado em português