Sobre Apropriação Cultural

Publicado: 19 de novembro de 2016 em Sem categoria

Você está de boa em algum grupo que tangencia as questões ambientalistas e de repente te mandam um share de um vídeo sobre um trabalho inovador e promissor de um cara branco, nórdico (ariano) inclusive. Daí colocam um nome composto com ar acadêmico tipo Agrofloresta ou Permacultura. E aquela velha concepção de homem branco herói,  e resolvedor dos próprios problemas que causa, é reforçada,  feito mais uma pedra que rola da montanha para formar areia.

Aparentemente o homem branco não apenas é um Deus como também escreve certo por linhas tortas.

Bem, daí, algumas mentes resistentes podem pensar O que torna o homem branco assim, tão fodão?

Podemos até enumerar alguns fatores.

Fator número um: Capitais cultural, social e financeiro. E sendo a primeira vez que uso esse termo ‘capital social’,  vou tomar a precaução de defini-lo da maneira que me veio à mente, exatamente enquanto eu pensava nos tais fatores. Capital social é o conjunto de condições socioambientais com que o homem branco se depara desde seu nascimento na sociedade que são  maior receptividade, confiança e atentabilidade às suas demandas. Em seguida pesquisei sobre o conceito e não facilmente caí em Bourdieu, que foi o mesmo que falou em capital cultural além do financeiro. Tal como eu previa, ainda bem. Mas desconfio que ele não tenha aplicado isso de maneira tão frontal sobre seus próprios privilégios de homem branco.

Fator número dois: tempo. Por causa dos fatores número um, o homem branco tem mais tempo livre para produzir mais capital cultural. Principalmente porque ele será muito melhor remunerado por isso. Serviço intelectual de preta é de graça quando não descreditado.

Fator número tres: mais recursos e mobilidade espacial. Também frutos do fator número um.

Tudo isso é herança dos dois sistemas bases, Racista e Machista, que retroalimentam a Supremacia Branca e a Masculina. Se pensarmos bem, bem ou mal, o homem branco ainda favorece a mulher branca e o homem negro, mas nadinha a mulher preta. Temos nada em comum com eles. Pare e pense.

Bem, nenhum desses fatores enumerados são relevantes nesse texto, não assim, a ponto de receberem destaque.

Estou aqui para destacar um subfator mais específico mas que produtivamente ainda tem relação com os fatores que destaquei, principalmente o terceiro, retroalimentando o primeiro fator, numa espiral.

O homem branco, graças aos produtos tecnológicos (recursos tecnológicos) da mecânica, termodinâmica e do eletromagnetismo, dispõe de maior grau de mobilidade espacial.

Essa mobilidade tem história. Eu vejo o homem branco como um produto da Europa. Vejo não, ele é um produto da Europa. Fato. E a Europa é um continente hostil. Um continente que expulsa, que coage a mobilidade. Que alimenta o ‘instinto’ de territorialismo, e de provocar guerras. Europa não é um ambiente para primatas, quanto mais um primata tão pelado. Ela é o caminho inverso da adaptação da espécie humana.

Nisso, viajar e visitar (ou invadir) outros territórios, criadouros de outras culturas, se fez inevitável.

O europeu teve ao seu dispor, no mínimo, antes da sua travessia do Atlântico, contato com quatro bolhas  culturais não europeias : Árabes e negros africanos, brancos orientais e negros indianos. O fato de não ser europeias causam grandes choques culturais. Alguns de magnitude surreais como a concepção do número Zero, por exemplo, grande “descoberta” herdada do contato com a cultura védica ou hindu.

Eu poderia citar várias contribuições de outros povos, africanos principalmente, que foram significativas na construção do Big Capital Cultural dos europeus, e eu faria isso sem estar próxima de esgotar a listagem, já que só sob muita resistência ao eurocentrismo tal listagem foi sendo criada. Mas vou partir do ponto de que minhas leitoras acham isso óbvio inclusive, e já até tedioso.

É quem dera fosse assim, porque se assim fosse, essa obviedade tediosa não teria que ser redigida. Até isso branco tem mais vantagem, ele não precisa sentar para escrever o óbvio.

Bem, o Grande Capital Cultural dos europeus e dos americanos foi construído por intercâmbio cultural. Não intercâmbio pois câmbio implica troca. Apropriação mesmo… Cultural.

Foram as diversas culturas do globo, os diversos olhares sobre os diversos fenômenos da Gaia que possibilitaram os europeus a avançarem na fundamentalização das ciências. Um gigante alimentado por várias nações. Para em seguida não lhes sobrar nem os ossos para contar história.

Deste acúmulo absurdo, altamente rico, versátil, diversificado, e milenar, que os europeus puderam chegar às obviedades das ciências naturais, sociais, artes e filosofias. Ah, sim, claro, da sua Religião também.

Este capital cultural, construído de apropriações culturais, entenda, foi o que possibilitou a construção da Supremacia Europeia (branca) e esta  supremacia trouxe o capital Financeiro e o Social.

Tranquilo?

Ok.

Mas, acaso é a supremacia branca e seu impacto negativo chamado Racismo um fenômeno estático e meramente histórico? Ela é apenas um ponto no passado ou um segmento continuo de reta presente até hoje e do amanhã em diante?

Ciente da resposta afim da minha, vamos então discutir um pouco a dinâmica desta supremacia. Como ela é desdobrada ao longo da história. Eu já disse algumas coisas e vou apenas resumir num esquema simples.

APROPRIAÇÃO CULTURAL ➡️ ACÚMULO DE CAPITAL CULTURAL ➡️ PRODUÇÃO DE CAPITAL FINANCEIRO ➡️ SUPREMACIA BRANCA ➡️ CAPITAL SOCIAL ➡️ PRODUÇÃO DE CAPITAL FINANCEIRO

Opa, vamos então rever a importância desses capitais. Você está usando um produto tecnológico agora para ler esse texto. Um produto fruto do alto desenvolvimento da cultura das ciências matemáticas e naturais, sendo o núcleo tecnológico miúdo em tamanho mas caro. Ou seja, capital cultural é convertido em capital financeiro. E o financeiro, já que dinheiro é poder (assim como conhecimento), é convertido ou endossa o capital… social. Que também vai ser convertido em capital financeiro, que compra mobilidade (apropriação cultural) e acesso à informação (capital cultural),  que vão gerar novas tecnologias que serão trocadas por mais capital financeiro.

Me desculpe minha limitação de tempo e tecnologia, ou talvez interesse mesmo, em desenhar melhor essa relação tão explícita aqui de retroalimentação do capital cultural, fruto de apropriação cultural (viagens, pesquisas e observações de povos nativos ou periféricos…), de indivíduos brancos que vai ser convertido em Moeda (capital financeiro) endossando o capital social que também ajudam e muito a facilitar a obtenção de mais moeda (capital financeiro). Desenhe você mesma, se julga necessário.

Voltando ao branco nórdico herói da falência ambiental causada pelos primitivos povos escuros de degradação ambiental, voltando a ele, ele é reconhecido como o cara que desenvolveu a permacultura. Mas ele não é indústria (ou acaso agora a academia será reconhecida como uma burguesia?), adiantando a leitura convenientemente omissa de marxistas racistas, e ainda assim é ovacionado (capital social) e recompensado (capital financeiro) por uma cultura já milenarmente existente (Apropriação Cultural) que é a cultura de, no mínimo, povos orientais de produção agrícola de alimentos. Esse modelo mais sustentável (leia-se inteligente), que curiosamente copia a natureza, é um modelo criado há muitos séculos por povos orientais como comunidades chinesas. E no vídeo do YouTube um nome europeu e pelos loiros é o tempo todo creditado sem sequer a fonte cultural de ““inspiração”” ter sido citada. I call this plágio.

E, naturalmente, não sendo este meu primeiro texto onde cito apropriações culturais, vide o texto Veganismo, Deuses Astronautas e Discovery Channel, algo assim, publicado no blog À Margem do Feminismo, onde introduzo essa questão da minha parte.

Não apenas a culinária vegana se apropria de culturas não brancas e revende como inovações criativas de brancos heróis, e não apenas a patética hipótese dos Deuses Astronautas, que tanto capital financeiro fez com a vendagem absurda de livros racistas (coisa da nossa contemporaneidade…), endossa a Supremacia Branca –  o sistema que vai favorecer a herança da família branca –  mas indivíduos brancos, diversos (não indústrias), vão lucrar e construir nomes e méritos com esse pequeno e tolo detalhe chamado apropriação cultural.

Isso está largamente estampado na Música. Do I need talk about it? Na dança! Vários indivíduos BRANCOS lucrando individualmente revendendo dança de povos explorados, invisibilizados, demonizados, ou seja, marginalizados, ao mercado. Mercado inclusive composto por pretos. Curiosamente, temos o fenômeno da venda da Capoeira. Quantos brancos ralés, academicamente fracassados, fugitivos do trabalho intelectual, ávidos por lazer, não saem daqui para revender Capoeira, esta luta artística que foi motivo de morte de tantos pretos escravos pelos próprios brancos, na Europa? Para ganhar em euro, ou pior, em libra? Tem branco vendendo capoeira, grite com isso, para pretos em MOÇAMBIQUE! Mon Dieu Noir!

Feijoada ? Samba? Cachaça? Acarajé? Acho que estou fazendo o desserviço de ensinar o brancos mais desatentos a ganhar dinheiro lá fora. Ou mesmo aqui.

Eu vou no centro de Umbanda e até Candomblé, e quem está ganhando dinheiro nessas religiões de preto? Brancos!

No funk… Ah, eu disse que não falaria de música, covardia pra esse tema.

Hum… Discussão acadêmica sobre Racismo e Negritude. Quero ganhar dinheiro com isso, ser lida e reconhecida por isso? A primeira pergunta… Eu sou branca pra ter essa ambição?

Da minha parte, vou deixar registradissimo, plágio e apropriação intelectual de brancas feministas das minhas ideias, outrora demonizadas, com direito a banimento, ocorre a ponto de eu, que pouco interajo na rede, e pouco espaço tenho (sou bloqueada e expulsa de vários grupos feministas), ver, olha…

A ponta de um iceberg do que o cinismo do ser humano não cansa de fazer.

Foi bom eu ter falado de mim, como de costume, porque um aspecto que não quero deixar mesmo de destacar sobre a Apropriação Cultural é que ela também tem sua dinâmica padrão. Vou tentar esquematizar mais uma vez aqui:

MARGINAL CRIA DUMA COORDENADA DE EXCLUSÃO SOCIAL E TENTA REVENDER ➡️ A ACADEMIA E OS BRANCOS DESPREZAM ➡️ BRANCOS DEMONIZAM ➡️ ALGUNS BRANCOS PAGAM DE SIMPATIZANTES DA CULTURAL MARGINAL ➡️ RECEBEM MÉRITO DE HUMILDES ➡ ENTÃO ALGUNS DESSES MESMO SIMPATIZANTES REVENDEM A CULTURA OUTRORA DEMONIZADA SE VALENDO DO SEU CAPITAL SOCIAL ➡️ O MERCADO RECEBE COM ENTUSIASMO ➡️ A IDEIA ️É ALIENADA DE SUA ORIGEM ATÉ A ORIGEM MARGINAL CAIR NO ESQUECIMENTO E MORRER NA MISÉRIA ➡️ A SUPREMACIA BRANCA É REFORÇADA.

Todos os pretos perdem. Todos os brancos ganham. Este é o saldo deste pequeno detalhe, ignorado e por vezes de insurgência atacada por marxistas, principalmente –  a riqueza de brancos com  reforço de permanência da sua supremacia, e fortalecimento do senso comum de que preto, preta, são nada criativas ou inteligentes.

Ficamos descapitalizadas, cada vez mais, não apenas de cultura, mas principalmente de inclusão social e recursos financeiros. Tempo útil de vida e energia mais uma vez roubados. Parasitados.

(Aviso: O texto abaixo não é recomendado para haters ou haters incubadas)

Recentemente estou revendo meu olhar sobre o meu filho e por consequência sobre mim mesma. Mas é uma revisão um tanto inflexível e que retorna ao mesmo ponto, só se reelabora para abarcar “novas leituras”, ou leituras anteriormente desprezadas.

Primeiramente, preciso dizer algo que aparentemente é irrelevante. Sou intolerante ao glúten e só aos 30 anos pude descobrir isso e tirar o véu dos meus olhos e minha mente. Nesta mesma época eu já era vegana e tinha cortado o leite (caseína para quem já pode entender por que cito isso), e foi justamente o veganismo que quase me matou, porque passei a comer carne de glúten, seitan. Tudo que já era ruim, ficou vertiginosa e dolorosamente pior. Há males que vem para o bem. Eu estava tão desesperada e frustrada com as dores e os ataques de letargia (desfalecimento) que após muita relutância fui seguir a tal dieta sem glúten, mais como forma de dizer “eu tentei de tudo”. Fim deste parágrafo.

Bem, meu filho tem 15 anos. Ele está fazendo terapia e estou revendo a leitura de que ele tenha autismo de alta funcionalidade, síndrome de Asperger. Eu tenho uma implicância gratuita com esse tipo de classificação porque meus namorados tentavam me enquadrar nisso. A implicância é tanta que por capricho aderi à astrologia, pois achei a leitura o mesmo tipo de “bosta”. Acho ambas pseudociências.

Não é fácil me entender, mas lá no final eu fecho o círculo.

Ser mãe é ter o cabelo puxado pela sociedade, o tempo todo. Ser mãe lúcida é ter o útero perfurado não apenas pela sociedade, mas pelas outras mães e pelos seus filhos.

Então, tive que reler sobre síndrome de Asperger para entender meu filho. E lendo um blog de uma mãe de uma “aspie”, me deparo com o relato dela de ter que se admitir aspie também, já bem velha. Acho que ela até disse que o diagnóstico tardio era tarde demais, apenas explicava que o erro não era ela. E ela dizia que a síndrome era genética, passada de mãe para filho. Ou seja, meu filho, se ele der cria, ele não passará esses “genes” para seus filhos. E como eu não tive filha, o carma da minha linhagem está rompido.

Bem, eu li um artigo que ela deixou no blog, um artigo traduzido http://mulheraspie.blogspot.com.br/2014/01/mulheres-aspies-mulheres-adultas-com.html

de uma psiquiatra que era doutora em autismo. E fui lendo e lendo. Muitas coisas batiam. Mas como eu já disse, eu me enquadro muito mais no que é chamado de Transtorno de Personalidade Esquizoide. Sendo um dos sintomas a relutância em fazer terapia. rs
Vou enumerar aqui apenas alguns elementos:

Tende a ter inteligência de acima da média a excepcional, frequentemente (mas não sempre) com divisões significativas entre as habilidades de raciocínio verbal e perceptual, velocidades mais baixas de memória de trabalho e/ou processamento, dificuldades de aprendizagem (por exemplo, discalculia, dislexia, dificuldade na compreensão de leitura).

  • Memória de longo prazo mais forte.
  • Memória de curto prazo mais fraca.
  • Pode se perder facilmente no campus, perder objetos, chegar atrasada para classes ou provas.
  • Preferência por interações sociais um-a-um, tendo uma única amizade próxima.
  • Precisa de mais tempo afastada de pessoas do que seus pares (solidão).
  • Pode ficar confusa em situações de grupos sociais.
  • Prefere conversar sobre seus interesses especiais.
  • Realmente não gosta de ‘papo fiado’ ou conversas que não possuem uma função ou propósito.
  • Histórico de sofrer bullying, ser provocada, deixada de lado e/ou não se adequando a colegas de mesma idade, a menos que ela tenha amigos Aspies.
  • Forte antipatia por conversa fiada, fofocas, coisas sem sentido, mentidas.
  • Desgosto intenso por mentiras, apesar de poder mentir.
  • Tem habilidade em socializar, mas é incapaz de o fazer por longos períodos de tempo. Sofre de “exaustão social” ou de uma “ressaca social” quando socializa por muito tempo. A ressaca pode durar de algumas horas a alguns dias, o que pode ser debilitante.
  • Tem grandes dificuldades em conflitos, discussões, quando alguém grita com ela, brigas, guerra.
  • Tem muita dificuldade em se afirmar, pedir ajuda, estabelecer limites.
  • Pode precisar beber para ser sociável.
  • Pode ter atualmente ou no passado transtorno de estresse pós-traumático, por ser mal compreendida, mal diagnosticada, maltratada e/ou medicada erroneamente.
  • Diferentes habilidades sociais — é excepcionalmente boa em conversas um-a-um e apresentando para grupos, mas tem dificuldades trabalhando em situações de grupos.
  • Pode se achar em situações sociais ou relacionamentos em que ela se sente infeliz, mas não sabe como sair deles.
  • Histórico de outros tirarem vantagem dela, apesar de ela seguir apropriadamente os conselhos de negócios, legais ou sociais das outras pessoas.
  • Frequentemente entediada em situações sociais ou festas e/ou não sabe como agir em situações sociais.
  • Pode aceitar ir em eventos sociais, e mais tarde inventar uma desculpa do porquê ela não pode ir, frequentemente ficando em casa sozinha.
  • Frequentemente prefere se dedicar ao seu interesse especial, ao invés de socializar.
  • Outras pessoas a consideram differente, estranha e excêntrica.

Vou parar por aqui porque é dez vezes isso de “sintomas”.

Ok.

Não foi a primeira vez que li sobre síndrome de Asperger, masculina, e nem a feminina. Eu estou num grupo de aspie no facebook, por influência do meu ex-namorado, em inglês, porque na época não existia em português. Eu curto uma página de mulheres com asperger. Enfim, não era a primeira vez que eu tinha lido a respeito, mas a minha reação foi comicamente (porque eu morro de rir de mim mesma, só que internamente) a mesma.

Aliás, uma das características que concordei nessa lista foi:

  • Ótimo senso de humor.

Eu tenho um ótimo senso de humor. Mas ele é muito desajustado do mundo. E raras pessoas se adéquam a ele. Geralmente meus namorados que se encaixam nele, por hábito de convivência.

Mas, minha reação foi a mesma. E eu ri dela. Foi a mesma reação. Isso é tão fiável quanto astrologia. Meu mapa me define mais (sol e lua em Áries, marte em escorpião e vênus vergonhosa). Fui dormir e no dia seguinte acordei com uma tese na cabeça.

A tese dos desviantes e dos com síndrome de manada.

Sobre os Desviantes e os com Síndrome de Manada.

Não é a primeira vez que falo disso, síndrome de manada. Isso tá no volume dois, do Projeto Reset, por exemplo. Mas é recente a minha aderência ao termo desviante.

Eu to namorando, e não quero largar meu namorado, não sem antes esgotá-lo intelectualmente. Quando a gente ficou pela primeira vez, eu achei ele tão estranho, que eu tive a certeza de que estava diante de um autista. Eu disse isso a ele. Ele demorou muito pra me beijar, ele tava frio. Eu estava puta. E beijei ele. E achei horrível. Fiquei puta. E eu disse “você precisa parar de alternar o beijo, isso me irrita, às vezes você beija bem, mas depois você quer mudar, argh!”. Eu tava puta mesmo. E ele concordou que estava fazendo isso. E na segunda chance ele me beijou na moral. Mas ele é só mais um cara desajustado que se atraiu por mim. Típico. Eu atraio esses tipos. Já tô acostumada. Mas para mim ele tem autismo de tão estranho que eu acho ele. Me lembro de ter perguntado “você consegue se comunicar com a sua mãe?”. E ele disse que sim, normalmente. “Ela parece te entender?”. E ele disse “nossa, Keli…”. Daí eu pensei “ah, então é uma questão de familiaridade”. Meu filho também é assim… Ele conversa bem comigo…

Bem, acontece que eu tenho uma amiga que disse que é aspie, e que fazia sentido meu filho ter asperger porque ele lembrava ela pela forma que eu o descrevia. Meu filho é o oposto de mim. Eu padeço de excesso de franqueza. Eu gasto muita energia mentindo. Eu minto, óbvio, mas não gratuitamente, só se for muito necessário. Tipo, quando alguém pergunta quanto eu ganho e essa pessoa tem baixa escolaridade e não quero lhe dar um fora. Sou didática. Mas na verdade, acho que nunca menti sobre isso, foi um exemplo aleatório. Só que eu e meu filho somos muito diferentes. Mas se você vê-lo vai me ver nele. A frieza e o jeito de falar.

Daí eu mandei a minha tese sobre síndrome de autismo, astrologia e síndrome de manada.

É bem simples. Todos esses diagnósticos falham por vício de pós-modernidade da ciência e da medicina. O que acontece é o seguinte. Existem dois espectros de seres humanos, os desviantes (adolescentes) e os com síndrome de manada. Os com síndrome de manada não são pensantes, são reprodutores de pensamento. Eles só seguem normas e grupos, com poucos desvios (por isso é espectro, pois ninguém é 100% desviante ou 100% manada). E por que fazem isso? Para se poupar energia. Por facilidade cognitiva. Pensamento crítico e analítico cansa.

Os desviantes são rebeldes, questionadores. E eles tomam dois caminhos: ou o da mentira, e ou o da honestidade excessiva. O que une ambos nesta classificação é o desajuste, a inconformidade com a manada, com as convenções sociais, a tentativa de pensar por si próprios. É uma questão de caráter cognitivo mesmo.

Os que seguem o caminho da mentira, estão fugindo de um hábito muito nocivo da manada, o do bullying. A didática da manada é essa, bullying social, pois não há lógica a ser defendida no pensamento dela. Antes o problema da manada fosse apenas seguir e reproduzir as normas e convenções cegamente. Não. A manada infelizmente não é um mero agente passivo. Ela é grande defensora do que segue. Ela é religiosa, dogmática. Dogmas não se questionam. Dogmas são seguidos e reproduzidos com base na fé. A fé é crença sem questionamento, sem necessidade de evidências daquilo que se segue ou defende. E a manada tem essa relação com a norma, defendê-la e coagir todos a fazer o mesmo. Então, ela pratica a penalidade. O bullying.

Dependendo do seu espectro, você pode ser um grande desviante, mas vai desenvolver dois mecanismos de sobrevivência que vai caracterizar sua personalidade. Mentir ou buscar a verdade.

Os desviantes mentirosos mentem porque querem praticar a liberdade sem sofrer as consequências do bullying social. Eles desistem de se contrapor ao poder da sociedade e se engajam numa vida de máscaras. Quanto mais desajustado, mas se tenta corrigir isso com mentiras. E isso pode virar um vício. Mas esse tipo pode ser também hipócrita ou oportunista e ver uma forma de lucrar com as consequências da síndrome de manada, pois um mercado acaba existindo.

Os desviantes francos seguem o caminho de maior gasto energético, de defender seus desvios e sofrer as consequências do bullying social. Este bullying gera uma reclusão social que acaba os tornando seres introspectivos e altamente reflexivos. O distanciamento da manada os favorece. São autodidatas e com forte inabilidade social. Isto pode se tornar um vício, uma bola de neve.

Daí esses espectros de desvios podem ficar intensos e os efeitos colaterais vão surgindo.

O desajuste social longe de ser uma doença, é fruto da variedade genética e causa da nossa complexidade cognitiva enquanto espécie.

O erro da medicina é não admitir que o sistema de normas sociais é uma grande fábrica de seres com transtornos psíquicos fruto da falta de inclusão e aceitação na sociedade e ver os desviantes como defeituosos que devem ser corrigidos com drogas. Pois nestas avaliações, substâncias hormonais são identificadas em excesso, geralmente hormônios de estresse.

Não considero conflituosa o fato de que alimentos inflamatórios como a caseína, o açúcar em excesso, os vegetais com agrotóxicos ou o trigo (que pertence a uma flora local do planeta) não agrave o quadro de desequilíbrio hormonal e de produção de anticorpos afetando o cérebro.

As drogas elas são lançadas no mercado para contrapor a produção ou não produção dessas substâncias ou bloquear a ação dessas mesmas. Mas o nosso organismo tem uma organização sistêmica, e geralmente quando tentamos alterar a produção de uma substância, afetamos a produção de outra que pode afetar a produção de outra, tal como acontece no ecossistema quando um animal ou uma espécie botânica é extinta.

A solução então seria a coexistência pacifica entre os com síndrome de manada e os desviantes. Os com síndrome de manada deveriam deixar a gente em paz e parar de praticar bullying social.

Mas, claro que as normas mesmas são constituídas de uma ampla defesa de existência. E não é só porque alguns indivíduos se desviam delas que ela não tem uma justificativa democrática de existência. Então, eu me limito a não discutir soluções para tudo isso. A solução todos já sabemos, a síndrome de manada que tem que parar, saca? Mas facilidade cognitiva é um vício porque é sobre comodismo. Comodismo vicia. E todos organismo vivos parecem seguir a lei de menor esforço…

A natureza é bizarra. E sobreviver não é fácil. Mas o efeito colateral disso tudo é que o grau de mentirosos e mentiras é intensificado.

Eu não acredito nesse rol de classificações de doenças. Eu entendo e aceito o autismo clássico, não tem como negar sua existência e seus sintomas que vão além da existência de uma sociedade tóxica e alimentos tóxicos (dietas antiinflamatória alivia significativamente os sintomas de autismo), mas o autismo em si pode ser um quadro de transição entre os seres humanos de hoje e os mais adaptados para todo esse quadro incerto. Complexo demais definir rumos para a humanidade.

Não estou negando a existência de doenças genéticas, mas questionando se todas as manifestações genéticas são mesmo doenças, e não apenas um mecanismo de sobrevivência da espécie. Afinal, se há uma manada indo em direção ao precipício, que mais seguro não seria haver indivíduos que conseguem se colocar de fora e ter um olhar crítico e uma postura resistente àquele rumo?

Acho que minha personalidade não é um transtorno, mas uma construção sólida de um indivíduo que nasceu questionador e ao mesmo tempo interessado na busca pela verdade, acima da aceitação social. Conviver com a manada não é fácil, ela te ataca ferozmente quando você resiste a vestir as máscaras que ela exige de você, mas somos seres humanos, cérebro plástico e organismo adaptável a adversidades diversas, inclusive reclusão e solitude.

Não aderir à crença de que você é um problema justamente por ser desvio pode ser mais que um ato de resistência, mas de reserva genética da continuação de uma espécie em autoextinção. Quem sabe?

Sobre meu namorado e meus laços, eu agora tenho como meta para 2017, ser o mais antissocial possível (elas me acusarão de arrogante, eu ligo o foda-se) e só me unir a quem está disposto a se provar honesto (intelectualmente) e esforçado. Gente honesta e esforçada. Este é o apartheid social que estou criando em minha própria vida. Gente honesta e esforçada. Coisa de uma verdadeira ariana.

Descrição de Áries

O ariano é uma pessoa cheia de energia e entusiasmo. Pioneiro e aventureiro, lhe encantam as metas, a liberdade e as idéias novas.

Os arianos gostam de liderar e preferem dar instruções a recebê-las. São independentes e preocupados com sua própria ambição e objetivos. Têm uma energia invejável, que às vezes lhes leva a ser agressivos, inquietos, argumentativos, teimosos.

Sobre Ansiedade e espero que algo mais

Publicado: 7 de novembro de 2016 em Sem categoria

Enquanto mulher negra, me vejo carente de obras que gritem sobre minhas barreiras para que as gritarias e perseguições cessem. Mas o que estamos fazendo além de não gastar nosso tempo falando o óbvio?

Minto, cansei de mentir, o que eu estou fazendo além de não perder meu tempo pouco tempo útil de vida dizendo o óbvio?

Só a melhoria da educação vai nos salvar, e diante do cenário atual de golpe de Estado, o que é dizer “só a educação vai nos salvar”. Direto ao ponto para otimizar seu dia. Estou cercada de mulheres doentes. Me disseram ontem que entendiam por que eu era um pára-raio de gente doente. Eu perguntei por quê??? Acho que a pessoa se distraiu. E eu ainda entendi nada. Eu peço explicações e só ouço no máximo zum zum zuns, “chega no in box que te conto mais” (não para mim, mas para mais uma hater em potencial).

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Críticas ao negralismo com base em tretas forjadas (nunca acontecidas)…

Feministas fazem isso, a didática de falar mal de mim in box, mas nunca comigo diretamente. Qual o problema comigo para merecer tanto voto de silêncio? Mas, minto novamente em forma de pseudodúvida. Pois é retórica. A fofoca é a última tática dos fracos, assim diz Karnal.

Sobre Ansiedade, a doença que quero destacar primeiro, não por vê-la como especial, mas por motivos passionais, uma pessoa que estimo muito está quase morrendo disso, estado grave, faço esse texto como autoterapia e ao mesmo tempo empatia, que nada mais é que fruto da minha ambição ultrapessoal e nada dedutível. Ansiedade e consumismo andam juntas. Ansiedade e baixa autoestima estima são filha e mãe. Ansiedade e medo são sinônimo. Estado de alarde que nunca cessa e te mantém travada. O que nossos corpos estão dizendo? Vamos abrir mais nossos ouvidos. Mas meditar é preciso.

Vamos começar pelo Consumismo.

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Vício infeliz. Produto da baixa autoestima. Produto da não aceitação de si mesma. Alienação do seu próprio valor. Necessidade de aprovação alheia. Alienação do processo de controle via aniquilação de ego. O consumista transfere o valor que não consegue mesmo ver em si, graças à propaganda que só o faz desmerecer a si mesmo, para torná-lo um mero recurso de tempo e energia (reificação). Isto soa como salto lógico? Consumismo e fonte de tempo e energia? Sim, por isso estou falando tanto de alienação. O consumista é um alienado do processo de racionalizar seus atos. Eu quero muito sapato X. E por que quero tal sapato? Porque é “bonito”. Mas é confortável?

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“Uma mulher com “bons” sapatos nunca é feia”

Conforto é para senhores, preciso de beleza. E por quê? Para viver aquela recompensa, ainda que breve, de ter algo elogiado em mim. Mas o sapato não faz parte de você. O elogio no máximo se deve ao designer. Não importa porque já nem me lembro disso. Esse não se lembrar, esse nem conseguir concluir isso, tão básico, tão óbvio, saltando à língua de uma criança, é justamente a alienação. Alienação do processo de racionalização das próprias escolhas e desejos. Ou seja, irracionalidade. O consumista é o produto final do capitalismo. Este produto é triste. Concretude do sadismo. Do parasitismo e predatorismo alheio. De tempo e energia. Tempo de vida e energia. Tantas coisas para se fazer ao invés de centralizar a moeda do seu tempo e energia gastos via trabalho laboral ou prostituição num objeto caro, desconfortável e não relevante. Mas não é um sapato 👟, são vários produtos assim no dia a dia, criados e vendidos como se fossem preencher nossa lacuna de afeição, mas não preenche.

Deixe-me recorrer a uma discussão que levantei a um amigo ainda na faculdade, em 2009. Se você estivesse com um homem loiro, olhos azuis, feições joviais, e corpo talhado, numa ilha deserta, sem esperança de resgate, as chances de você se apaixonar por ele são beeem menores diante das chances de se apaixonar por ele numa cidade povoada. Eu usei um homem e loiro porque meu amigo era gay e louco por nórdicos. Por que isso? Porque há o fator consumismo envolvido. O consumismo tem muito a ver com a ânsia de se destacar da multidão como especial por ter um objeto raro, ou seja, competido. É um apelo ao artifício, ao externo, para se provar especial. E com isso receber atenção. O ínterim disso causa o quê? Ansiedade.

Demanda:

Preciso de atenção.

Reflexão:

– Como?

– Me destacando dentre a multidão.

– Como?

– Portanto algo competido.

– Portas isso naturalmente?

– Não.

Solução:

– Porte então um objeto.

Sim, o loiro é mero objeto neste caso. A ser exibido em provocação. Pelos olhares alheios, elogios, sorrisos, likes, e até ódio (inveja), nos sentimos especiais. Ele não se vê, mas vê a mim. A mim. Sou especial. Já posso dormir mas amanhã preciso reviver isso. Consumismo vicia pois a recompensa é efêmera, e no dia seguinte ela já não está lá, pois era apenas um objeto. Já visto, já elogiado. Ou a gente diversifica nosso mercado de elogios (dando um rolê), ou renovamos nossos objetos disputados. Ansiedade, medo de não se alcançar essa meta e lidar com a invisibilidade. Ou mesmo os olhares de reprovação. Pois, quem dera né, os indivíduos agissem com neutralidade. Quem dera!

Ansiedade e consumismo andam juntos, sendo o consumismo um já fruto da baixa autoestima. Mas existem os casos onde o consumismo não está envolvido (lembrando que o consumismo nem sempre envolve meramente busca por aceitação e atenção, mas preservação de energia, comodidade), e a autoestima desencadeia uma cadeia de ações para busca direta de aceitação social – carência afetiva – ou meio de sobrevivência. Medo de não conseguir um básico ora para comer, ora para ter um abrigo. Quando a verdade é que que comida dá em árvores, ou rastejante sob a terra. E de espaço precisamos pouco.

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A imensa maioria de nossas necessidades são invenções para cumprirmos obrigações de serviliência ao consumismo e comodismo alheio. Se acreditar como um fracassado é a meta de quem te quer temente, temerosa, carente e desesperada. Jovem, respire, primeiramente, e ouça seu corpo, confie nele. Confie na sua capacidade natural de se adaptar, de saber lidar por exemplo, é muito bem, com a idade. Sem medo. Sem vaidade.

Somos ainda animais, de poucas demandas naturais, mas muitas inventadas. A competição com outros se alienando da necessidade daquela disputa é a causa da ansiedade. A saída é simples porque somos seres simples mesmo, não complexos: Muito auto-respeito e auto-aceitação.

[A próxima doença que quero falar é “mentiras”]

Saindo do Negralismo-Razões

Publicado: 1 de novembro de 2016 em Sem categoria

Haters serão as primeiras a julgar , mas haters são haters, ou seja, pessoas que te odeiam gratuitamente , sem razão concreta de atitude sua contra ela. Só antecipando o comportamento clichê.

Bem, estou citando esse segmento da sociedade justamente porque ele é uma das razões .

O negralismo recebe muitas críticas massantes e sem fundamento justamente porque atacá-lo é uma maneira de atacar a mim e outras figuras que se identificaram com o negralismo e também são odiadas. Todas as haters dela são minhas haters, mas o oposto não ocorre. Ou seja , sou um problema para a identidade do coletivo .

Eu poderia falar sobre trashing e inveja, sobre várias coisas , verbetorio não me falta, mas tomei remédio pra dormir porque eu precisava já estar dormindo há duas horas . Tô aqui torcendo pelos efeitos .

O negralismo foi criado a partir desse blog. Há pouco a se criticar nele enquanto teoria , o incômodo está em ter sido eu a idealizadora. Homo sapiens são animais competitivos de  em situação de desespero . E eu poderia também dissertar longamente sobre isso, obra bom leitor do blog , não preciso dizer mais nada . Saio por causa das haters.

Mas claro que há outras razões . Eu não preciso do negralismo , nunca precisei . Ele foi consequência dos meus ensaios nesse blog. Eu preciso de mim , só pra mim.

Se sinto orgulho do negralismo ? Puxa, se você me conhece e conhece minhas obras, minha história de vida , minha pessoa , puxa , o que é o negralismo perto disso tudo?  Só mais uma audácia minha em me opor ao sistema , inclusive o de rivalidade .

Mas, é isso , saio porque preciso de mim.

Para as que se preocupam comigo, fique mesmo tranquilaça, sou uma das pessoas mais bem resolvidas na vida que você vonhece. Meus problemas nem são meus.

Estou bem, tô namorando, me entendendo com minha ex., e outras coisas melhores ainda . Estou bem mesmo. Por que acha que causo tanto ódio ? Divergência política ? Isso nem faria sentido dado que quem me persegue alega amar mulheres . Pare e pense, nunca foi sobre divergência política. Essas mesmas pessoas andam com racistas e machistas .

Queria mesmo fazer agradecimentos mas é muita gente. Também não quero expor mais nomes a serem odiados. Sabia que as haters perseguem quem anda comigo ? Sim, tudo é escroto assim. 70th no ranking mundial da educação . Haja paciência .

 

Mas Monique Kraemer , minha advogada, já é cara estampada nos nobres coletivos de “não confiável pq Keli”. Patrícia Alvino também se aborrece muito me defendendo . Queria mesmo retribuir . Amo vocês duas.

Sol ☀ , vou te chamar assim . Não se exponha , não vale a pena . Mas você ultrapassou todo apoio que poderia me dar em tudo. Superou meu Marcelo , parece reencarnação dele. Amo muito vocês .

Meu primo maravilhoso , estrela brasileira, Raphael Bandeira , o que eu tenho de odiada e impopular , ele tem de amado e popular . Todo mundo ama o pH , eu cheguei primeiro. Te amo porque você é meu irmão .

Cássia e Carol , a prova cabal de que mulher branca, preta e parda podem ter uma amizade verdadeira , Livre de fofoca ou sequer rivalidade , há mais de 10 anos . São meus tesouros . Doida para usar mais meu tempo a favor delas. Amo demais .

Não citarei mais nomes por serem muitos e não merecerem exposição.

Mas não posso deixar de deixar bem claro que guardo muitas mágoas , muitas mesmo . Muita gente se aproximou com o interesse de me usar de alguma forma . Foi sádico . Afromisogino . Gente que queria tatuagem escrita “mais nobre do que um homem ” , e enquanto ria para mim,  estava me malhando pelas costas. Gente falsa , competitiva , caluniadora , cínica – mulher. De fato me tornaram o que sou hoje , menos trouxa e hiper desconfiada.

2017 é um ano que temo e ao mesmo tempo saturei de apostas e projetos . Mas estou ansiosa desde já de viver para mim.

Se pararei de escrever ? Claro que não . O blog e outros trabalhos de escrita e roteiros serão ainda feitos pois é isso que assegura minha existência , o registro dessa coisa chamada ideias.

Duvido que uma hater chegou até aqui, então , obrigada a você também . Continue divulgando o blog. E apoiando as que quiserem manter o negralismo . Força para elas.

 

 

Em 2014, quando eu ainda era feminista, eu vivenciei algumas ações e atitudes contraditórias dentro do feminismo radical. Preciso ser breve e objetiva (por falta de tempo), então não me cobre minúcias. Era algo que ninguém discutia ou reclamava, claro, mas era como pertencer a uma igreja que prega uma coisa, com muita ênfase, e faz totalmente outra.

O feminismo radical é um feminismo materialista e bem diferente do marxismo por ser crítico dele, da experiência das mulheres no regime soviético, em espaços de militância com homens de esquerda, e do apagamento do caráter misógino do patriarcado pela substituição, ou sinonimação do termo, pelo termo capitalismo.

Para o feminismo radical, o patriarcado é o sistema que origina todas as opressões, então, a raiz (radical vem de raiz) de todas as opressões e problemas sociais é a dominação masculina. Para o marxismo é meramente o capital. O capitalismo. Daí eles repetem jargões como Patriarcado = Capitalismo. Já viu esse bordão por aí? Deveria se atentar a ele…

Uma análise sobre feminismo radical (que utiliza o MÉTODO materialista) e marxismo, o diferenciando do feminismo marxista, e criticando os teóricos “marxistas”, que eu li, sendo a única nesses 2 anos, foi a aparentemente muito lúcida, apesar de branca, da Christine Delph, socióloga feminista materialista da França:

“Os conceitos usados pela análise marxista da exploração capitalista (ou Capital, para simplificar) não podem na realidade explicar a exploração das mulheres, pela mesma razão que não podem explicar a exploração de servos, escravos, ou servos contratados, ou prisioneiros em campos de trabalho, ou arrendatários africanos. Pela simples razão de que os conceitos usados para explicar a exploração por salários – e é isso que é o assunto do Capital – não podem explicar a exploração dos não remunerados. Mas os conceitos usados na análise do capitalismo não são o todo do pensamento marxista. Ao contrário, eles são em si mesmos derivados de conceitos mais gerais. Como, de outro modo, teria Marx sido capaz de analisar modos de produção e exploração não-capitalista, tais como a escravidão e o feudalismo? Os conceitos de classe e exploração não vem do estudo do capitalismo; ao contrário, eles pré-existem a ele, autorizam ele, e são a origem da noção do capitalismo em seu sentido marxista, ou seja, como um particular sistema de exploração. Esses conceitos mais gerais – classe e exploração – não somente de nenhum modo requerem que as divisões sexuais sejam ignoradas mas, ao contrário, são eminentemente úteis em explicá-las. E aqui eu quero dizer “explicar” no sentido forte: não somente em descrevê-las, não em descrever somente o que ocorre depois que a divisão existe, mas em explicar sua gênese.”

A análise dela é tão objetiva e contundente, que recomendo mesmo a leitura.

O feminismo radical é uma teoria, e ela acaba englobando vários conceitos e análises que acabam formando um padrão daquilo que pode dizer de “pensamento feminista radical”. Então, não é qualquer coisa que se autoproclama “terf” que é feminista radical. E a base do feminismo radical é de uma literatura feminina branca. Ou seja, mulheres escrevendo sobre aquilo que chamam de “a opressão das mulheres pelos homens”. Divergências e caminhos aléns tem? Principalmente quando se adentra nas experiências lésbicas. Mas um padrão de características do que é feminismo radical existe. E teóricas contemporâneas brancas radicais também existem.

Daí, em 2014, eu percebi uma contradição revoltante. O feminismo radical é separatista e prega que mulheres devem ler mulheres, e que mulheres que devem escrever sobre mulheres. Há todo um compêndio polarizado em criticar homens. Mas aqui no Brasil, algumas mulheres e coletivos que se diziam feministas radicais (além de expulsar mulheres negras de seus grupos), estavam trazendo um discurso que favorecia homens, não-negros. E apoiando escritos de homens brancos sobre o feminismo radical.

E coisas como “parem a misandria”, “só existe um feminismo, não precisa do nome radical”, “patriarcado não é a origem de todas as opressões”, e etc, era pregado em tom de crítica e decepção, como se o feminismo radical precisasse ser corrigido por isso.

Bem, paralelamente, o feminismo marxista, ou classistas, quando eu ia pesquisar sobre, estava aparelhado pela teoria queer, que é uma teoria pós-moderna, fruto de um desdobramento de filosofias e correntes liberais. Um tanto, para não dizer bastante, incompatível com o método materialista, o mesmo utilizado e defendido por Marx e Engels.

Isso quer dizer que quem antes se identificava com o feminismo marxista ortodoxo, não via mais espaço nos coletivos de feminismo marxista, pois não aceitar a leitura de gênero queer é ser terf (sic). Então, “já que você é terf, você é radical”…

E os únicos locais aparentemente livres da infiltração da ideologia queer era o feminismo radical. E o feminismo radical ficou resumido a isso, não trabalhar com políticas identitárias de gênero, não trabalhar com conceitos como privilégios cis, e ainda ser crítico da misoginia de gays, travestis e transsexuais do sexo masculino, pois a socialização muito importa para este feminismo.

Então, para mim, muito particularmente, estava claro que alguma coisa estava muito errada. Contraditória. Veja bem… Eu, negra, poderia muito bem ser vigiada e criticada por estar mantendo homens negros em meu face, e os mesmos falando de feminismo… Mas elas podiam ter seus homens brancos marxistas falando de feminismo. E se diziam radicais. Isso deu treta, obviamente.

Daí, eu, muito particularmente, tive uma coceira da mente, me questionando sobre aquilo tudo, tal como fiz aos 9 anos quando eu era cristã… Já que eu li a bíblia na íntegra, quase duas vezes…

E reparei o tipo de discurso:

– Anti-misandria ou crítico da misandria.

– Escassa ou nenhuma citação de autoras feministas radicais, mas citações de autores homens, marxistas ou de esquerda.

– Um ranço de teorias anarquistas.

– Anti-PT (importante citar esse padrão).

– Ataque às negras e sua reinvindicação de lugar de fala.

– Ataque à teoria do local de fala como liberal e falsa simetria com a prostituição. “Porque se o feminismo radical aceitar lugar de fala, radfems, radfems não, odeio americanização, feministas, pois só existe UM feminismo, não vão poder falar de prostituição”.

– Posterior expulsão de negras que apontavam a falsa simetria.

– Criação de grupos de letramento racial só para brancas discutir racismo em paz.

– Crítica ao lesbofeminismo (não que fossem as únicas, mas era uma característica) e hostilidade às lésbicas.

– Crítica às defesas de feministas radicais (algumas) às mulheres burguesas.

– Linguajar obscurantista com jargões pedantes e excesso de circunlóquios (que eu lia, e relia, e percebia que nada tinha sido dito – elas escreviam mal).

– Homens podem sim falar sobre feminismo.

Uau…

Na mesma época eu criei o Á Margem. Por também isso. E a perseguição contra mim foi endossada cada vez mais. Depende do texto que eu lançava nos grupos deste mesmo blog. Eu me tornei uma ameaça às feministas.

Ok… Grandes merdas elas.

Bem, uma radical na época, lésbica, e que vivia dividindo textos de leituras (quem sabe inglês se beneficia mais nessas horas) interessantes de autoras radicais, me chamou pra discussão já que ela viu que eu estava, ao meu modo, apontando contradições, e falou em “aparelhamento ideológico”. Eu sou das exatas, nunca ouvi esse termo. Perguntei o que era e ela me explicou. Semanas depois eu a excluí do face porque ela tinha empregada doméstica negra (risos hoje, não por achar menos grave, mas eu tava boladona na época*).

*eu vim da favela, já fui empregada doméstica e babá aos 13 anos, então, 
eu sinto revolta com isso, enquanto muitas feministas negras não. 
Por isso os risos... porque o mundo é mais podre do que parece.

Ok…

Bem, eu sou negralista, para quem não sabe. E a idealizadora do negralismo. E, como tal, enquanto eu me mantiver neste movimento (minha saída é hiper-possível), eu vou lutar contra a desonestidade intelectual de classificar negralismo como feminismo negro, e dizer que tudo é a mesma coisa e tanto faz, chega mais. Pois isso dilui e ofusca, até as diferenças deixarem de existir.

Mas estamos falando de política… Essa coisa podre.

No negralismo eu digo que estamos em guerra. E me preocupa que as negras não entendam isso, por falta de visão panorâmicas sobre as dinâmicas de explorações e parasitismo humano.

Se negralismo não é feminismo, ele não deve ser englobado dentro do feminismo, mas ficar destacado, justamente para que a mescla não ofusque os conceitos mais diferenciadores do feminismo. E não vou falar sobre isso de novo aqui.

Aqui é para falar do aparelhamento do feminismo radical pelo Marxismo, pelas leituras  marxistas não-queer (pleonasmo), e pela ofuscação do mesmo devido à hegemonia masculina e intelectual dos marxistas, que, são academicistas, no sentido verdadeiro e original da palavra.

Sobre meu problema com marxistas (não com isonomia de direitos, oportunidades e sequer remuneração), me sinto em casa nesse trecho da Delphy:

“A atitude religiosa constrói Marx como um objeto de estudo em si mesmo. “Marxologistas”, como seu nome indica, estão interessados em Marx enquanto Marx. Eles perdem de vista do porquê Marx é importante; ou melhor, eles invertem a ordem de prioridades. Eles julgam Marx não em termos de políticas, mas julgam políticas em termos de Marx. Esta atitude talmúdica pode, à primeira vista, parecer contraditória às interpretações muito variadas a ser encontradas entre os diferentes setores marxistas (algo não ruim em si mesmo) e o fato de que suas análises, todas supostamente “marxistas”, divergem radicalmente entre eles mesmos. Mas, na realidade, a reverência pela missiva de Marx, a constituição disso na referência última, semi-divina, o dogma da infalibilidade, serve para construir a autoridade com a qual os “marxistas” posteriores, quem quer que eles sejam, adornam a si mesmos. O recurso do argumento da autoridade – eu estou certo porque eu sou um Marxista – não é de jeito nenhum particular de marxistas, mas isso não faz disso mais perdoável.
O marxismo é erigido como o valor dos valores e é visto não somente acima das lutas, mas fora delas. A última perversão, e aquela que é além disso muito difundida, é aquela de que as pessoas então vem julgar a real opressão, e mesmo a própria existência da opressão, de acordo se ou não corresponde ao “marxismo”, e não o marxismo de acordo com se ou não é pertinente ou não à real opressão. Essa perversão não é, claro, um simples desvio do intelecto, desprovido de significado político. Para enfatizar uma revolta, como uma revolução de mulheres, somente aquilo que é consistente com suas interpretações do marxismo permite as pessoas eventualmente a decidir que uma revolta é inválida ou sem importância (“o que importa é ser um marxista, não fazer uma revolução”).” – leia a íntegra AQUI.

Para um marxista (esses “da internet”, esses performáticos), eu sou uma inculta por SER NEGRA, e por não palavrear e reproduzir “Marx” e ovacionar Lênin e o regime soviético.

Para quem é minha leitora, está muito claro como eu sou multi e transdisciplinar, primeiramente pela minha formação, em Física, não humanas ou sociais. E estou citando isso para aconselhar a não-polarização de ideias, pois isto é típico de religiões, sendo na verdade uma ferramenta muito eficaz de estagnação de ideias. Enquanto a engrenagem chamada de capitalista cresce em poder, principalmente via a ferramenta Tecnologia. Fora diversas outras demandas…

O objetivo do Negralismo é bem claro para os menos afromisóginos, chamada de responsabilidade de caráter urgencial. E isso porque o local de fala desta que vos fala é de no mínimo de tangência com as demandas mais urgentes de camadas (negadas por marxistas como mais oprimidas) ultra megaoprimidas (às vezes da vontade de recorrer às ordens numéricas de grandezas para vocês entenderem). Isto tudo é sobre mim, sobre minha família. Por isso muita coisa que eles querem jogar no lixo, por não ser radical, importa, pois é uma questão de sobrevivência.

Eu nunca vou sossegar e me silenciar enquanto a hipocrisia (vulgo discurso contraditório e omisso) de vocês não ficar exposta. Este é o papel desse blog.

O interesse do Negralismo nessa questão é de, além de servir como exemplo de táticas maquiavélicas nos movimentos sociais – que são parte da sociedade não à parte, é de defender políticas convenientes para nós no feminismo radical. Porque o papel das brancas é preparar o espaço que queremos ocupar.

E uma coisa que eu não disse, e que é de suma importância para nós, negralistas, é entender o por quê da abertura das próprias feministas “radicais”, antes de tudo mulheres brancas, a esses homens marxistas.

Motivo número 1: Blindagem anti-ataque queer. Pois eles são homens. Isto é um caso de fêmeas pedindo socorro a machos. Demagogias à parte, la vie est très simple comme ça.

Motivo número 2: Conveniência do discurso reacionário ao movimento negro e seu apontamento de supremacia branca. Sim, brancas estão fugindo para as leituras marxistas com o único intuito de se sentirem em condições iguais às negras e terem que desconstruir nada. Nesse tipo de marxismo, você tem culpa de nada, fica apenas sentado aí, vista uma camisa vermelha, e coloque a capa do barbucho no face, porque a culpa de tudo é do Obama e da Beyoncé. Você é vítima de negros. E o único inimigo são os ricos.

O marxismo no feminismo radical, além de desvirtuá-lo, é muito conveniente nesse ponto, por isso esse sincretismo, que no fim é um retorno à estaca zero na História. Pois, por increça que parível, esta não é a primeira, e nem segunda vez – talvez seja a quarta ou além – que brancas se aliam aos seus patriarcas fugindo da desconstrução da Raça.

Só que Raça, quer queiram, quer não, continua sendo a pauta mais urgente do século XXI, assim como foi do século XX. E eu não sou a única a pensar assim. Não vou lembrar dos autores fodas que já li dizendo isso, mas me sinto segura em saber que uma parcela, branca inclusive, acadêmico europeia, também pensa assim, ainda hoje.

Eu disse, eu disse em 2014, que Racismo é a causa do Colapso do feminismo. Mais uma fucking vez.

Eu não acredito em Revolução.

Publicado: 31 de julho de 2016 em Sem categoria

Para caso isso ainda não tenha sido percebido.

Para mim, Deus e Revolução são duas invenções humanas.

Acho plausível quando se fala em transformações, graduais…

Primeiramente, quero compartilhar e deixar registrado o meu sorriso de ponta à ponta quando a Hellen Lobanov descreveu a maternidade francesa. Eu gritei: “Hellen, por isso tenho tanta afinidade com a França, eu sempre fui uma mãe francesa”. Mas vamos aos questionamentos, estou com sono.
Como temos um planejamento de luta contra o patriarcado e o gênero, vendo creches como solução para as mães?
As creches são soluções para as mães sim, são. Minha pergunta foi provocativa, apenas. Mas… Quem gosta de cuidar de criança? A História tem mostrado que ninguém (risos). E me destaco como uma dessas pessoas que compõem a imensa maioria da humanidade.
Mas creches são soluções? Ou atalhos?
Acho que atalhos, né? Mas que tipo de mulher quer trabalhar numa creche? Quanto ela ganha? E por que mulher, né?
Eu não tenho respostas, hoje, só questionamentos. E esses questionamentos dificilmente se partirão dos dedos de privilegiados.
Se gênero deve ser abolido, quem cuidará de crianças? Por que cuidado de criança como papel social de uma classe sexual já é existência de gênero. E na natureza vemos gênero.
Daí, facilmente eu leria como resposta, caso eu não me antecipasse citando a mesma: “quando gênero é abolido, os cuidados das crianças ficam também a encargo dos homens…”.
Ué, então a desconstrução do machismo do homem é possível e predita na teoria ou proposta de abolição de gênero, e não acontece apenas por parte da utópica união de todas as mulheres… 
Estou com sono, releve.
Para não existir Gênero, homens deveriam também cuidar de crianças, certo? Mas homens cuidando de crianças precisam não ter inclinações agressivas e de pedofilia, certo? Lembrando que nas outras espécies, filhotes apanham dos adultos, para aprenderem ou serem punidos por mau comportamento. A natureza… é amoral. Moral… é uma coisa inventada.
Bem, se homens podem ser desconstruídos… homens podem ser desconstruídos…
Só que ele é um estuprador em potencial por natureza…
(Estou mesmo apenas presa num ensaio de questionamentos, sério. Não necessariamente defendo essas premissas).
Solanas dá a solução utópica e de grande fé na tecnologia, de S.C.U.M. Bem, esses tipos de soluções são tão… baratas. Não exequíveis. E, enquanto isso, bilhões de mulheres vão padecendo e alimento o sistema com filhotes…
Voltando às creches… Existe alguma proposta (dentro do feminismo) que concilie abolição de gênero e criação de crianças? As creches, com as mulheres lá, pobres, marginalizadas, exploradas, são medidas paliativas? Essas mulheres serão recompensadas neste caminho de revolução de liberdade em prol das mulheres?
Eu, como negralista, vejo a importância da emancipação do homem negro, dentro das comunidades negras, porque entendo a dependência das mulheres negras desses mesmos homens na luta contra a supremacia branca e seu imperialismo. Vivemos numa guerra de clãs patriarcal, não? Ou estou errada?
E esse ver importância, não significa carregá-lo no colo. Isso colidiria com o egocentrismo. Mas isso está dentro da questão de tática e alianças.
Ao meu ver, creches alimentam gênero. Mulheres limpando a minha casa para eu fazer meu doutorado e “lutar” por elas também. Fora que implica fé, né? Fé de que um dia os esforços dela serão recompensados… rs
Sinto-me muitas vezes rodeadas de religiosos.
Como é isso de misandria e criar meninos? rs
Sério que já estou lá na frente, no paraíso feminista de mulheres abolicionistas de gênero mas sororárias e criando a prole, fruto de uma cópula hétera, de outras mulheres… E, os homens… ou desconstruídos, sem praticar violência e estupro… ou longe. E elas criando meninos… E eles virando os opressores das mesmas. E continuando vivendo livres por não terem que ficar presos à crianças.
Vai dizer que só eu sou a bugada quando penso nessas coisas?
Eu não me acho a única, apenas a primeira a admitir, após dois anos de covardia, que…
Ladies…
Nós temos um paradoxo…
É… eu não sou ovelha para seguir… eu questiono, logo existo.

Por IVALDO MARCIANO DE FRANÇA LIMA, doutor em História da África.

O pan-africanismo é um complexo movimento de idéias, teorias, arranjos e visões de mundo surgido na primeira metade do século XIX, a partir dos contatos entre negros da Grã-Bretanha, Antilhas, EUA e lideranças do continente africano. Trata-se uma resposta às teorias raciais desenvolvidas ao longo do século XIX, a exemplo da poligenia e do darwinismo social (HERNANDEZ, 2005; APPIAH, 1997; DECRAENE, 1962). O pan-africanismo tem como uma de suas principais questões a idéia de que a África deveria ser transformada nos Estados Unidos da África, preferencialmente usando a língua inglesa e professando o cristianismo. Os teóricos do pan-africanismo inventaram a África una, homogênea e indistinta, que ainda hoje está presente nos textos de vários autores africanistas, que tratam o continente no singular, esquecendo de suas diversidades e realidades distintas. Esta África, nessa perspectiva, é tida como a origem de todas as práticas, costumes, culturas e religiões dos negros e negras da diáspora. Nesse sentido, o pan-africanismo pode ser apresentado como questão para entender parte dos movimentos negros da atualidade, além de ser fundamental para perceber sua persistência em diversas obras recentemente publicadas, que ainda apresentam o continente africano como uma realidade una, homogênea e dotada de um único ponto de vista, religião, costume e práticas. Ou seja, em outras palavras, o pan-africanismo inventa uma África para os africanos e propicia a idéia de que este continente é sinônimo de negro, formada só por um povo, os africanos, além de dispor dos negros da diáspora como parte deste continente, daí, o fato de terem sido os pan-africanistas um dos responsáveis pelos movimentos de “retorno” dos negros recém emancipados, ou já livres e vivendo há algumas gerações nas Américas para o continente africano (HARRIS; ZEGHIDOUR, 2010; SOUZA, 2008; M´BOKOLO, 2007). Pode-se afirmar com isso, que os pan-africanistas viam nos negros da diáspora uma condição de igualdade racial em relação aos negros do continente africano, e por * UNEB – Alagoinhas/BA. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 2 isso incentivavam o retorno “para sua casa”, a África. Tal questão suscitou, segundo Richard Ralston e Fernando Mourão, problemas diversos tanto entre os governos da Libéria, Serra Leoa e Etiópia com os articuladores e militantes pan-africanistas, a exemplo de Garvey, Blyden e Turner, bem como dos negros da diáspora com as autoridades destes países africanos, ocorrendo muitas vezes a expulsão ou a simples recusa da entrada dos “retornados” na África (RALSTON; MOURÃO, 2010; HARRIS; ZEGHIDOUR, 2010). Segundo Elikia M´Bokolo e Leila Hernandez, o “pai” do nacionalismo da África ocidental chama-se Blyden, que viveu entre os anos de 1832 a 1912. Blyden, liberiano de nascimento, viveu parte de sua vida em Monróvia, capital da Libéria, e em Freetown, capital de Serra leoa. Appiah, na obra Na casa de meu pai, mostra que a partir do panafricanismo, sobretudo Blyden, uma África vai sendo gestada enquanto contraponto as idéias de inferioridade racial e o colonialismo. Mas esta África não é diversa, repleta de povos que falam muitas línguas. É, sobretudo, a África, país dos negros, e que de preferência tome o inglês como língua. Além de Blyden, outras personalidades do panafricanismo foram fundamentais neste processo de construção da idéia de nação entre os africanos de modo geral. Crummell, Du Bois, Aggrey e Garvey são outros nomes possíveis de serem citados como construtores deste processo (APPIAH, 1997; M´BOKOLO, 2007; HERNANDEZ, 2005, 2002). Independente das questões a respeito dos retornados, e de como os panafricanistas fundamentaram a construção discursiva de uma África homogênea, sem fronteiras e sinônimo dos negros, importa afirmar que enquanto movimento de idéias, foi fundamental para a constituição de consciências nas elites culturais africanas em relação às questões econômicas, sociais, políticas e culturais do continente. De tal modo, pode-se afirmar que para entender os Estados nacionais africanos, é preciso compreender os debates que foram suscitados nos congressos do movimento Panafricanista, além dos processos de independência do continente africano, que resultou na formatação dos nacionalismos da atualidade (KODJO; CHANAIWA, 2010; DU BOIS, 1999). O pan-africanismo, nesse sentido, contribuiu para a construção da idéia de nação entre os africanos. Dentre os muitos líderes pela independência dos países africanos, parte significativa era de intelectuais que sofreram a influência do pan-africanismo, a Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 3 exemplo de Jomo Kenyatta (Quênia), Peter Abrahams (África do Sul), Hailé Selassié (Etiópia), Namdi Azikiwe (Nigéria), Julius Nyerere (Tanzânia), Kenneth Kaunda (Zâmbia), Kwame Nkrumah (Gana), Amilcar Cabral (Cabo Verde e Guiné Bissau), Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade e Viriato Cruz (Angola) e Samora Machel (Moçambique). Grande parte destes homens, a exemplo do líder da emancipação de Costa do Ouro (atual Gana), Kwame Nkrumah, estudou nas universidades dos negros norte-americanos. Trata-se, portanto, de um movimento de idéias que cobre um longo período, desde a primeira metade do século XIX até os anos 1960 do século XX, momento em que o pan-africanismo não consegue sofrer solução de continuidade e de implementação, sobretudo após o golpe em Gana, e a derrubada de Nkrumah da presidência deste país (ASANTE; CHANAIWA, 2010; KODJO; CHANAIWA, 2010). Importa para nossa discussão, nesse sentido, o fato de que ainda hoje o continente africano aparece, com recorrência, nos textos e discursos de militantes negros brasileiros, aludindo à idéia de uma África una, homogênea e desprovida de fronteiras, diversidade de línguas e povos. O pan-africanismo propiciou a existência dessa África indistinta. (Pode-se conferir a relação linear entre África e Brasil, como se tudo o que fosse construído pelos negros constituísse africanidades, ou permanência deste continente no país, nos seguintes trabalhos: ARAÚJO, 2008; D´AMORIM, 1996; FARIAS; NASCIMENTO; BOTELHO, 2007; MATTOS, 2007; MELO; BRAGA, 2010). Percebe-se, nesse aspecto, que tais idéias ainda continuam dotadas de força significativa na diáspora, sobretudo no Brasil. Pode-se afirmar, inclusive, que o texto da lei 10639/2003, no que pese seus aspectos positivos, também sofre as influencias desta indistinção entre o que é da África e o Brasil, deixando implícito em partes de seu texto a idéia de que há descendência direta entre os negros e negras deste país com os africanos.

Leia mais no artigo de 13 páginas, AQUI.

INTRODUÇÃO

É incrível. Está bem explícito que o maior papel de gênero é justamente aquele rejeitado pelos homens, mesmo os aficcionados e fetichistas da feminilidade – o maternalismo.

E como maternalismo vou definiar aqui o conjunto de práticas e comportamentos que mulheres programadas desde a infância insistem em praticar sob a ideologia de abnegação em prol de outrem.

Eu sou negralista, mas antes de ser negralista, eu sou egocêntrica inteligente. Se você não entende o que é o egocentrismo inteligente, evite julgá-lo, porque as chances de falácias do espantalho são altas. Mas pelo conceito de E.I, o maternalismo ocidental é posto em xeque.

Sinto-me sozinha nessa, pelo menos aqui no Brasil. Só conheço, via rede, mães pamonhas e fanáticas, cegas e patéticas. Mortas. Idólatras. Por isso mortas. São vitimas de lavagem cerebral, e as raízes não são genéticas, nem hormonais. Mas ideológicas.

Vivenciamos então um paradoxo, onde as próprias vítimas defendem com unhas e dentes seu estágio de prisão, se tornando um produto mais patético ainda. Porque há diferença entre o escravo que mantém a lucidez sobre sua prisão e aquele que se aliena dela e tem fé de que aquilo não é uma prisão, mas um local onde todos  deveriam estar. Pelo menos ele merece estar. Não há muita diferença entre mães, religiosos, feministas pró-feminilidade e prostitutas pró-prostituição. Para todos esses “o problema não é” a religião, ou a feminilidade, a mercantilização do sexo, ou a criança. É como alguns indivíduos ou a sociedade se comporta.

Maternidade é contexto. Um contexto social. E como tal deve ser revisado. Por quem? Por mulheres. Mas algumas mulheres sofrem mais o peso da maternidade que outras. Pois já nascem presas a nichos sociais alienantes e mais misóginos que outros. E… estão inseridas num processo histórico e herança cultural distinta e atrasado pelo subdesenvolvimento. E, claro que para quem caga para as disparidades raciais, não compreende a materialidade, a concretude, do que eu quero dizer.

Então, eu tenho discutido isso, politicamente isolada e silenciada, sozinha. Como o feminismo tem encarado a maternidade? Eu não sei. E já não quero saber. Mas na práxis tem sido desastroso. Superficial e maternalista. Como o negralismo vê a maternidade?

Bem diferente de como brancas e mentes brancas têm visto.

Negralismo não é feminismo, não é reduzido a gênero. Ele é sobre tudo. Pois a negra é um homo.

E como a gente vê importa? Sim, importa. Pois os problemas sociais, os vícios brancos, e os vícios dos homens, afetam em peso e sobrepeso a nós.

Maternidade é um contexto. Um contexto social. E como tal deve ser revisado e questionado. Ela não é absoluta, não tem um modelo absoluto. São várias culturas e várias formas de mulheres serem organizadas para cuidar de pirralhos. Este é o principal papel de gênero das fêmeas humanas, cuidar de crianças. Não importa se você renega esse papel e não suporta dois minutos de histerismo infantil, você tem a obrigação de achar isso lindo e dar assistência ao novilho.

Eu não pretendo esgotar a relação mulheres-crianças num único texto. E não por me faltar conteúdo, mas por isso ser exaustivo. Eu sou escritora de sci-fy, não professora de brancas irresponsáveis com tudo e o meio. Brancas que projetam todo o seu umbiguismo na figura infantil, o token do seu ego egoísta. A maternidade ocidental, que tomo a cautela de cunhar como ocidental por pragmatismo e precaução, não por ignorar que a bosta é universal, é uma escola de parasitismo. A maternidade é um processo de reificação da mulher. Mães são produtos sociais patéticos que escolarizam seus filhos como regentes. Elas, alienadas do direito de ser e se mover, transferem todo seu anseio sobre essa existência negada ao filho. Parece um mero caso de opressão feminina, mas o fato de ser uma opressão não exclui as motivações de cunho individualista que transformam tal ser num escravo devoto.

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Sabe o branco de classe média que defende o rico? É fácil por um prisma vê-lo como um mero escravo. E de fato há leituras e literaturas que colocam o branco de classe média, independente se for neoliberal ou marxista, como um escravo do sistema. Mas os neoliberais defendem o capitalismo. E por quê? Por que são ingênuos demais? Ser burro não é sinônimo de ser ingênuo. Vamos separar esses dois conceitos. Burrice e ingenuidade. Esses indivíduos são burros e românticos, sim, mas são movidos pelos próprios vícios capitais. Eles se projetam em um dia serem ricos. E por isso defendem a existência de classe e riquezas. Tem todo um lance de ignorar a matemática estatística e probabilística, e etc, mas… burrice é isso. E muitas decisões burras são tomadas por interesses egoístas nossos. Ou preguiçosos.

Voltando às mães, seres canônicos, toda essa defesa e abnegação exarcebada delas além de falsas são meras projeções de seus próprios egos falidos nas crianças. A mãe anseia anarquismo, ou regência (tanto faz), ser deus. Mas a sociedade veta a concretude desse desejo dela. Então… ela vê seu filho como uma extensão dela. Ou ela mesma. E logo aquilo que todos devem admirar, se prostar, ter paciência e complacência, se importar. Isso parece muito com devoção, nobreza e humildade, mas é egoísmo.

A adulação de jovens e crianças é uma coisa que varia de sociedade para sociedade, mas se encaixa perfeitamente, tal como luva, nesta sociedade de consumo. Mas eu acho irracional que um ser que em nada se provou útil e importante para a sociedade ou comunidade mereça tantos esforços e atenções voltadas para si, enquanto velhos, idosos, de uma longa vida de feitos e servidão, sejam ignorados até a morte. Para mim é uma inversão de valores. E para algumas culturas não ocidentais também.

Eu não pretendo esgotar este tema, pois é um tema angular. E como tema angular defino aquele que, se revisado, pode desencadear uma série de revoluções filosóficas, ideológicas e políticas. Pois defendo que maternidade é o principal papel de gênero.

Temos que discutir também o quanto mulheres que não querem ser mães acabam sendo coagidas a ainda assim cuidar de crianças, enquanto homens continuam livres. É bizarro que justamente no meio feminista isto seja reproduzido. Mães ficam revoltadas com a recusa de outras mulheres em não se importarem com crianças. Cada criança tem uma mãe e um pai. Qual a obrigação de outras mulheres de cuidar de crianças abandonadas pelo pai? Zero. E por que isso é cobrado delas? Vai se dizer que não é cobrado. Mas, retaliação e demonização é um tipo de cobrança.

Enquanto isso, tantas mulheres negras precisam de assistência de mulheres mais abastadas. Mas elas recebem assistência? Não. Seus filhos recebem assistência? O oposto disso. E isso não é cobrado.

E quando observo a cor dessa mulheres revoltadas com a falta de babás e assistentes para seu projeto hétero falido de vida, eu fico impressionada. Me parecem madames que entraram no feminismo mas estão sentindo falta daquilo que sempre tiveram: concubinas e lacaias domésticas.

No negralismo, a maternidade é discutida tão a fundo, que até na hora da gente discutir as motivações das mulheres em ter filho, temos que fazer recorte. Recorte das brancas. As razões pelas quais elas ainda têm filhos é diferente das nossas. Os efeitos e peso de um filho na vida delas é muito diferente das nossas. O produto final, que elas chamam de filhos, é diferente dos nossos. Até crianças são classes e categorias. Não somos obrigadas a gostar de todas as crianças. E tampouco nos importarmos com todas elas. Temos prioridades. Ao menos deveríamos ter.

Quando eu disse acima que a maternidade é uma escolarização de parasitismo, estou fazendo uma crítica na maternidade tal como ela é: pedocêntrica (na verdade, misógina), debilitante e mortalmente perene.

E ainda que eu mesma advogue que a maternidade é assim porque homens existem como predadores,  e se eles não existissem, as crianças seriam livres para serem livres, isso não deve ser encarado com fatalismo, mas antes deve-se ponderar as formas de sairmos deste entrave antropológico ginocida.

E os pontos que já disse aqui é que:

  • Ter filhos não é uma necessidade do indivíduo, mas da sociedade, a fim de mantê-la.
  • Ter filhos não é vantajoso para o indivíduo, e para a mulher é um sacrifício.
  • As mulheres deveriam usar bem seus cérebros e tomar decisões racionais, ou seja, que vão trazer benefícios a longo prazo, para elas, claro.
  • A maternidade, por isso mesmo, é compulsória.

Mulheres aprisionadas ao maternalismo é ultraconveniente para o capitalismo. Elas colocam indivíduos ora mão-de-obra barata ou ora consumista no mundo, e estes sustentam o sistema. Só que o fato de as mulheres estarem aprisionadas é o que as mantém afastadas da vida política, as mantendo domesticadas com a prole. Enquanto homens ocupam as ruas para praticar violência e exploração de territórios e recursos.

A maternidade e o maternalismo tem que acabar, porque é ela que alimenta essa sociedade. Antes de mulheres terem filhos, elas têm que exigir que a sociedade esteja desintoxicada, pois esses novos indivíduos serão como a sociedade, serão frutos dela.

Mulheres e seu maternalismo, seu pedocentrismo misógino, estão entravando as discussões ultra-necessárias e urgentes sobre não apenas a compulsoriedade da maternidade, mas o caráter nocivo dela. Caráter, este, como eu já desenhei, não absoluto, mas construído pela sociedade.

Se mulheres forem inteligentes, como lutam para ser, elas vão compreender a importância de se recusar ao maternalismo, para que a sociedade aprenda a dar valor ao papel central e vital da fêmea nesta espécie e se curve totalmente para condições ideais de liberdade e segurança para mulheres e crianças.

Amar crianças, no fim, não é abrir as pernas para parir e ficar aparelhando movimentos de mulheres com advocacia de crianças, mas se recusar a alimentar este sistema com escolarização de parasitismo, consumismo desenfreado e domesticação de mulheres.

Maternalismo é o nosso principal papel de gênero, e ele, junto com as Marias, têm que morrer.

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MATERNIDADE COMPULSÓRIA

Publicado: 30 de junho de 2016 em Sem categoria